sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Cuba

Também fui pra Cuba na década de 90.
Fidel ainda estava inteirão, tinha feito um discurso de 4 horas alguns dias antes de eu chegar.

As pessoas achavam engraçado alguém que fazia publicidade querer conhecer Cuba. Também achavam engraçado alguém que fazia publicidade se interessar por movimento estudantil. Às vezes é a primeira metade da frase que contém o erro.

Tirei fotos incríveis durante minha estada por lá. Me senti a própria Sebastiana Salgado. Em Havana, claro. Varadero é uma bobagem. Mas valeu pela cor do mar.

Cuba foi a primeira viagem que fiz convictamente sozinha. Encontrei um amigo antigo na fila do aeroporto, mas não saímos juntos por mais de dois dias.

E me senti em casa, em todos os momentos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

ECA-USP

Nos anos 90, a Universidade de São Paulo já não era mais a mesma (e a gente viveu um pouco de seu sucateamento).

Na minha primeira semana de ECA fui parar no jornal. Não estávamos tendo aulas por falta de professores e eu sou toda esquentadinha com essas coisas de "direitos". Fiz protesto, fui entrevistada e meu depoimento foi publicado no Zap, do Estadão.

Continuei esperneando durante o restante do curso, pois as decepções vinham de baciada. Isso que dá ser uma pessoa ávida por conhecimento matriculada num curso picareta. Se deu melhor quem gostava de cerveja...

Mas fiz algumas coisas interessantes: li um texto do Baktin que mudou a minha vida, fizemos uma pesquisa bem interessante sobre gôndolas de supermercados, analisamos um artigo de jornal buscando elementos de persuasão, fiz um retrato cubista dos pontos de ônibus da cidade universitária, escrevi um outro final para um conto do Guimarães me esforçando para utilizar a mesma linguagem dele.

Também fizemos uma campanha contra o trote violento que fortaleceu laços de amizade absolutamente essenciais para mim até hoje. Por causa dela, mais 15 minutos de fama numa entrevista memorável dada à CBN e à Band (nessa última, se não me engano, foi que coloquei o entrevistador "em seu devido lugar"). Eu era braba...

E minha apresentação do TCC confirmou isso. Tentei ser polida, mas não deixei de falar para um dos caras mais respeitados da minha banca que ele não tinha lido meu trabalho direito pra me fazer uma pergunta daquelas. Naquela ocasião, meu orientador confessou que dava um certo medo de mim, quando eu resolvia encrencar com alguma coisa.

Com o tempo eu fui ficando mais macia. Uma grande amiga minha diz que a maneira como a pessoa se relaciona com o mundo é reflexo da maneira como se relaciona consigo mesma.

De fato: foram acontecimentos da década seguinte que me fizeram olhar para a vida de uma forma mais maleável.

Na época da faculdade eu ainda não tinha percebido o quanto era refém de mim mesma.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Me preparando para o vestibular

Na década de 90, a Fuvest resolveu inovar nas propostas de redação. Muita gente chiou, mas eu achei um ótimo. O mundo estava começando a ficar com a minha cara. Quem sabe eu não tinha mesmo chances de entrar na USP, apesar do curso técnico?

Meu ano de cursinho foi um dos mais cansativos e felizes da minha vida.

Eu devorava aquelas aulas de história geral, história do brasil, geografia e literatura do Anglo. Era como reencontrar amigos queridos que há muito tempo eu não via. E como eram inteligentes, bons de papo, bem humorados, esses meus amigos! Nem sentia o tempo passar.

Meu combinado comigo era aprender o máximo durante as aulas. Não me propunha a estudar nada fora do horário, mesmo porque eu estudava no SENAI das 6:15 às 16:45 (pra aprender desde cedo a ser peão). Era aprender ou largar.

Eu tinha dois melhores colegas no cursinho. Dois que estavam ali pra valer, como eu. Foi com um deles que eu assisti ao show do U2, algum tempo depois.

Foi no cursinho que aprendi a tomar chá mate. Promoção: 1 mate e dois pães de queijo na lanchonete da rua ao lado. E era baratíssimo.

Um dia em que eu voltava do cursinho, a lua estava gigante e minha música preferida começou a tocar no rádio. Era um sinal de que tudo ia dar certo.

E tudo deu certo.

(detalhe: passei no vestibular com maior número de acertos nas matérias de humanas - praticamente gabaritando história e português na segunda fase. Um feito incrível para quem tinha emburrecido durante 4 anos nessas disciplinas...)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Como deixei de ser técnica

Na década de 90 morreram Cazuza, Renato Russo, Ayrton Senna, Mamonas Assassinas... Morreu também uma futura técnica de automação da manufatura.

Foi na aula de literatura que isso aconteceu. Péssima era pouco: aquelas aulas eram abaixo de qualquer crítica. Vejam se faz algum sentido terminarmos todo o conteúdo de literatura um semestre antes do curso acabar, sendo que a carga horária de humanas é extremamente reduzida no curso técnico. Mas foi isso que a professora declarou que aconteceu.

De forma que, no último semestre, ela nos deixou livres para "criar nosso próprio movimento cultural-literário". Poderíamos falar sobre qualquer coisa, de qualquer forma que quiséssemos. Depois ela informou que poderíamos fazer qualquer coisa com aquilo que tínhamos ou não tínhamos feito (não seria mais preciso entregar ou apresentar o trabalho).

Mas o fato é que eu decidi fazer um vídeo. E aquilo foi um divisor de águas na minha vida. Há anos não tinha tanto estímulo para fazer alguma coisa. Certamente era melhor do que programar robôs e projetar circuitos...

E foi assim que dei uma guinada na vida e fui prestar vestibular em comunicação. Queria fazer cinema, mas eram cinco as disciplinas na segunda fase da Fuvest, contra duas da publicidade. E eu tinha clareza do quanto teria que remar para ter alguma base mínima para passar no vestibular.

Como consegui é tema para outro post.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Estágio no IPT

Durante meu estágio no IPT, eu construi um leitor parecido com o que hoje reconhece as placas dos carros para multar. Orgulho do papai!

Vi a galera comer muito "arroz selvagem" e suco de "tutti frutti" às sextas-feiras no restaurante da firma. Sem contar o insuperável sorvete interativo (sua imaginação define o sabor da sobremesa - fantástico!). Mas também tínhamos bons momentos (a sopa de queijo no inverno era demais!).

Fiz bons amigos que hoje não vejo mais.

Alguns with benefits.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Inglaterra

Houve uma forte onda de Pagode nos anos 90.

Minha mãe quis me afastar disso e me mandou pra Londres, pra oxigenar um pouco a cabeça e olhar pra tudo em perspectiva. Funcionou. Foram 6 semanas de solidão que me salvaram de uma das vidas que eu poderia ter tido.

Não foi fácil. Eu era, realmente, uma estrangeira. Uma turista. Eu não cabia. Vi tantas coisas legais, conheci tanta gente, mas era como se eu estivesse alheia a tudo, numa bolha.

Lá eu não fui cosmopolita e independente como eu me orgulharia de ter sido. Lá as minhas velhas táticas não funcionavam. Lá eu não conquistei tudo o que quis. Lá eu poderia ter fortalecido algumas boas amizades. O problema é que lá, bem no fundo, eu queria estar aqui.

Mas eu não estava aqui, então eu tive que me virar.

Com isso descobri que eu sou capaz de me adaptar. Descobri que os limites que parecem existir pras nossas ações são, muitas vezes, criados por nós mesmos (e há muito terreno do outro lado da cerca). Me comportei de formas diferentes que ainda continuam disponíveis, se assim eu escolher.

A Inglaterra me ampliou os horizontes em todos os sentidos. Fez com que eu me encontrasse, pelo meu oposto.

E fez com que eu voltasse ainda mais brasileira, mas gostando menos de pagode.

Assim, alguns dias depois, eu fiz o que tinha que fazer...

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

São Pedro

Enquanto as distâncias iam diminuindo para a informação e para a economia, eu começava a percorrer algumas distâncias maiores, contadas em milhares de quilômetros.

Nos anos 90, minha mãe se exonerou do estado. Isso fez um bem danado para a renda familiar e nos possibilitou viajar para lugares diferentes de Ribeirão Preto e Franca, casa dos meus avós e primas.

A primeira vez que eu andei de avião eu o dirigi. Foi num teco-teco, em São Pedro, antes de chegarmos ao Hotel Fazenda Guarany. A gente estava justamente conversando no carro sobre a nossa vontade de andar de avião algum dia. Eis que meu pai vê um aeroporto na beira da estrada, decide entrar, e alguns minutos depois lá estávamos nós, voando...

Não foram poucas as vezes que errei na hora de puxar e empurrar o manche e o piloto teve que intervir. O mesmo talento que tenho para perder nos jogos de videogame coloquei em ação naquele vôo. Não preciso dizer que minha mãe não gostou nada da experiência.

É muito louco se aproximar demais de uma montanha de avião. De repente aquela forma geométrica verde quase lisa começa a ganhar textura, instantaneamente. Parece videoclipe.

Depois que voltamos para a terra firme, me diverti muito com um outro meio de transporte: o lombo do cavalo.

Viajar é muito bom.