E eis que o último post dos anos 90 vem falar de uma experiência que terá reflexos ao longo de toda a próxima década.
Trabalhei na Editora da USP.
Lá soube o que era trabalhar numa repartição pública. Lá soube o que era ter uma chefe maluca-beleza. Lá soube o que era estruturar um departamento de marketing amador. Lá soube que o empreendedorismo está ao nosso alcance.
Durante os seis meses que fiquei ali, tive uma amostra de vários caminhos que segui ou cogitei seguir mais tarde. Também expandi os limites do meu gosto estético.
Não poderia deixar de fazer essa última menção honrosa, antes da década acabar.
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domingo, 11 de janeiro de 2009
sábado, 10 de janeiro de 2009
Voz Ativa
Eu fui representante discente no Conselho de Graduação da USP.
Tive que responder por essa desobediência civil numa reunião do C.A. da ECA. Em outros fóruns respondemos aos que achavam que participar das decisões com número tão baixo de alunos era legitimar o que não deveria ser legitimado. Preferiam não ter representantes (o que equivale a não serem ouvidos).
A Voz Ativa foi uma experiência bem legal. Foi possível perceber quais são os truques que os autoritários inteligentes usam para tornar a democracia mais favorável. Também foi uma oportunidade de entender um pouco melhor as forças que compõem a esquerda brasileira e de exercitar a participação.
Foi uma época em que ouvi tiradas memoráveis relacionando regimes políticos aplicados a uma república de estudantes. As Ciências Sociais trazem um repertório magnífico para o humor.
Fazendo uma análise a posteriori, os meninos do C.A. tinham razão a respeito da nossa pretensa representatividade. Assim como nós tínhamos razão a respeito da pretensa representatividade deles.
Éramos, de certa forma, um pequeno retrato do tipo de cultura democrática que, nós brasileiros, temos como sociedade: votamos e torcemos para que os eleitos tenham entendido nosso recado. Que recado? Só deus sabe!
E nós, com todo o excesso de material de pauta para ser lido, encaminhado aos 45 do 2º tempo, fizemos o que pudemos.
Tive que responder por essa desobediência civil numa reunião do C.A. da ECA. Em outros fóruns respondemos aos que achavam que participar das decisões com número tão baixo de alunos era legitimar o que não deveria ser legitimado. Preferiam não ter representantes (o que equivale a não serem ouvidos).
A Voz Ativa foi uma experiência bem legal. Foi possível perceber quais são os truques que os autoritários inteligentes usam para tornar a democracia mais favorável. Também foi uma oportunidade de entender um pouco melhor as forças que compõem a esquerda brasileira e de exercitar a participação.
Foi uma época em que ouvi tiradas memoráveis relacionando regimes políticos aplicados a uma república de estudantes. As Ciências Sociais trazem um repertório magnífico para o humor.
Fazendo uma análise a posteriori, os meninos do C.A. tinham razão a respeito da nossa pretensa representatividade. Assim como nós tínhamos razão a respeito da pretensa representatividade deles.
Éramos, de certa forma, um pequeno retrato do tipo de cultura democrática que, nós brasileiros, temos como sociedade: votamos e torcemos para que os eleitos tenham entendido nosso recado. Que recado? Só deus sabe!
E nós, com todo o excesso de material de pauta para ser lido, encaminhado aos 45 do 2º tempo, fizemos o que pudemos.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Cuba
Também fui pra Cuba na década de 90.
Fidel ainda estava inteirão, tinha feito um discurso de 4 horas alguns dias antes de eu chegar.
As pessoas achavam engraçado alguém que fazia publicidade querer conhecer Cuba. Também achavam engraçado alguém que fazia publicidade se interessar por movimento estudantil. Às vezes é a primeira metade da frase que contém o erro.
Tirei fotos incríveis durante minha estada por lá. Me senti a própria Sebastiana Salgado. Em Havana, claro. Varadero é uma bobagem. Mas valeu pela cor do mar.
Cuba foi a primeira viagem que fiz convictamente sozinha. Encontrei um amigo antigo na fila do aeroporto, mas não saímos juntos por mais de dois dias.
E me senti em casa, em todos os momentos.
Fidel ainda estava inteirão, tinha feito um discurso de 4 horas alguns dias antes de eu chegar.
As pessoas achavam engraçado alguém que fazia publicidade querer conhecer Cuba. Também achavam engraçado alguém que fazia publicidade se interessar por movimento estudantil. Às vezes é a primeira metade da frase que contém o erro.
Tirei fotos incríveis durante minha estada por lá. Me senti a própria Sebastiana Salgado. Em Havana, claro. Varadero é uma bobagem. Mas valeu pela cor do mar.
Cuba foi a primeira viagem que fiz convictamente sozinha. Encontrei um amigo antigo na fila do aeroporto, mas não saímos juntos por mais de dois dias.
E me senti em casa, em todos os momentos.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
ECA-USP
Nos anos 90, a Universidade de São Paulo já não era mais a mesma (e a gente viveu um pouco de seu sucateamento).
Na minha primeira semana de ECA fui parar no jornal. Não estávamos tendo aulas por falta de professores e eu sou toda esquentadinha com essas coisas de "direitos". Fiz protesto, fui entrevistada e meu depoimento foi publicado no Zap, do Estadão.
Continuei esperneando durante o restante do curso, pois as decepções vinham de baciada. Isso que dá ser uma pessoa ávida por conhecimento matriculada num curso picareta. Se deu melhor quem gostava de cerveja...
Mas fiz algumas coisas interessantes: li um texto do Baktin que mudou a minha vida, fizemos uma pesquisa bem interessante sobre gôndolas de supermercados, analisamos um artigo de jornal buscando elementos de persuasão, fiz um retrato cubista dos pontos de ônibus da cidade universitária, escrevi um outro final para um conto do Guimarães me esforçando para utilizar a mesma linguagem dele.
Também fizemos uma campanha contra o trote violento que fortaleceu laços de amizade absolutamente essenciais para mim até hoje. Por causa dela, mais 15 minutos de fama numa entrevista memorável dada à CBN e à Band (nessa última, se não me engano, foi que coloquei o entrevistador "em seu devido lugar"). Eu era braba...
E minha apresentação do TCC confirmou isso. Tentei ser polida, mas não deixei de falar para um dos caras mais respeitados da minha banca que ele não tinha lido meu trabalho direito pra me fazer uma pergunta daquelas. Naquela ocasião, meu orientador confessou que dava um certo medo de mim, quando eu resolvia encrencar com alguma coisa.
Com o tempo eu fui ficando mais macia. Uma grande amiga minha diz que a maneira como a pessoa se relaciona com o mundo é reflexo da maneira como se relaciona consigo mesma.
De fato: foram acontecimentos da década seguinte que me fizeram olhar para a vida de uma forma mais maleável.
Na época da faculdade eu ainda não tinha percebido o quanto era refém de mim mesma.
Na minha primeira semana de ECA fui parar no jornal. Não estávamos tendo aulas por falta de professores e eu sou toda esquentadinha com essas coisas de "direitos". Fiz protesto, fui entrevistada e meu depoimento foi publicado no Zap, do Estadão.
Continuei esperneando durante o restante do curso, pois as decepções vinham de baciada. Isso que dá ser uma pessoa ávida por conhecimento matriculada num curso picareta. Se deu melhor quem gostava de cerveja...
Mas fiz algumas coisas interessantes: li um texto do Baktin que mudou a minha vida, fizemos uma pesquisa bem interessante sobre gôndolas de supermercados, analisamos um artigo de jornal buscando elementos de persuasão, fiz um retrato cubista dos pontos de ônibus da cidade universitária, escrevi um outro final para um conto do Guimarães me esforçando para utilizar a mesma linguagem dele.
Também fizemos uma campanha contra o trote violento que fortaleceu laços de amizade absolutamente essenciais para mim até hoje. Por causa dela, mais 15 minutos de fama numa entrevista memorável dada à CBN e à Band (nessa última, se não me engano, foi que coloquei o entrevistador "em seu devido lugar"). Eu era braba...
E minha apresentação do TCC confirmou isso. Tentei ser polida, mas não deixei de falar para um dos caras mais respeitados da minha banca que ele não tinha lido meu trabalho direito pra me fazer uma pergunta daquelas. Naquela ocasião, meu orientador confessou que dava um certo medo de mim, quando eu resolvia encrencar com alguma coisa.
Com o tempo eu fui ficando mais macia. Uma grande amiga minha diz que a maneira como a pessoa se relaciona com o mundo é reflexo da maneira como se relaciona consigo mesma.
De fato: foram acontecimentos da década seguinte que me fizeram olhar para a vida de uma forma mais maleável.
Na época da faculdade eu ainda não tinha percebido o quanto era refém de mim mesma.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Me preparando para o vestibular
Na década de 90, a Fuvest resolveu inovar nas propostas de redação. Muita gente chiou, mas eu achei um ótimo. O mundo estava começando a ficar com a minha cara. Quem sabe eu não tinha mesmo chances de entrar na USP, apesar do curso técnico?
Meu ano de cursinho foi um dos mais cansativos e felizes da minha vida.
Eu devorava aquelas aulas de história geral, história do brasil, geografia e literatura do Anglo. Era como reencontrar amigos queridos que há muito tempo eu não via. E como eram inteligentes, bons de papo, bem humorados, esses meus amigos! Nem sentia o tempo passar.
Meu combinado comigo era aprender o máximo durante as aulas. Não me propunha a estudar nada fora do horário, mesmo porque eu estudava no SENAI das 6:15 às 16:45 (pra aprender desde cedo a ser peão). Era aprender ou largar.
Eu tinha dois melhores colegas no cursinho. Dois que estavam ali pra valer, como eu. Foi com um deles que eu assisti ao show do U2, algum tempo depois.
Foi no cursinho que aprendi a tomar chá mate. Promoção: 1 mate e dois pães de queijo na lanchonete da rua ao lado. E era baratíssimo.
Um dia em que eu voltava do cursinho, a lua estava gigante e minha música preferida começou a tocar no rádio. Era um sinal de que tudo ia dar certo.
E tudo deu certo.
(detalhe: passei no vestibular com maior número de acertos nas matérias de humanas - praticamente gabaritando história e português na segunda fase. Um feito incrível para quem tinha emburrecido durante 4 anos nessas disciplinas...)
Meu ano de cursinho foi um dos mais cansativos e felizes da minha vida.
Eu devorava aquelas aulas de história geral, história do brasil, geografia e literatura do Anglo. Era como reencontrar amigos queridos que há muito tempo eu não via. E como eram inteligentes, bons de papo, bem humorados, esses meus amigos! Nem sentia o tempo passar.
Meu combinado comigo era aprender o máximo durante as aulas. Não me propunha a estudar nada fora do horário, mesmo porque eu estudava no SENAI das 6:15 às 16:45 (pra aprender desde cedo a ser peão). Era aprender ou largar.
Eu tinha dois melhores colegas no cursinho. Dois que estavam ali pra valer, como eu. Foi com um deles que eu assisti ao show do U2, algum tempo depois.
Foi no cursinho que aprendi a tomar chá mate. Promoção: 1 mate e dois pães de queijo na lanchonete da rua ao lado. E era baratíssimo.
Um dia em que eu voltava do cursinho, a lua estava gigante e minha música preferida começou a tocar no rádio. Era um sinal de que tudo ia dar certo.
E tudo deu certo.
(detalhe: passei no vestibular com maior número de acertos nas matérias de humanas - praticamente gabaritando história e português na segunda fase. Um feito incrível para quem tinha emburrecido durante 4 anos nessas disciplinas...)
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Como deixei de ser técnica
Na década de 90 morreram Cazuza, Renato Russo, Ayrton Senna, Mamonas Assassinas... Morreu também uma futura técnica de automação da manufatura.
Foi na aula de literatura que isso aconteceu. Péssima era pouco: aquelas aulas eram abaixo de qualquer crítica. Vejam se faz algum sentido terminarmos todo o conteúdo de literatura um semestre antes do curso acabar, sendo que a carga horária de humanas é extremamente reduzida no curso técnico. Mas foi isso que a professora declarou que aconteceu.
De forma que, no último semestre, ela nos deixou livres para "criar nosso próprio movimento cultural-literário". Poderíamos falar sobre qualquer coisa, de qualquer forma que quiséssemos. Depois ela informou que poderíamos fazer qualquer coisa com aquilo que tínhamos ou não tínhamos feito (não seria mais preciso entregar ou apresentar o trabalho).
Mas o fato é que eu decidi fazer um vídeo. E aquilo foi um divisor de águas na minha vida. Há anos não tinha tanto estímulo para fazer alguma coisa. Certamente era melhor do que programar robôs e projetar circuitos...
E foi assim que dei uma guinada na vida e fui prestar vestibular em comunicação. Queria fazer cinema, mas eram cinco as disciplinas na segunda fase da Fuvest, contra duas da publicidade. E eu tinha clareza do quanto teria que remar para ter alguma base mínima para passar no vestibular.
Como consegui é tema para outro post.
Foi na aula de literatura que isso aconteceu. Péssima era pouco: aquelas aulas eram abaixo de qualquer crítica. Vejam se faz algum sentido terminarmos todo o conteúdo de literatura um semestre antes do curso acabar, sendo que a carga horária de humanas é extremamente reduzida no curso técnico. Mas foi isso que a professora declarou que aconteceu.
De forma que, no último semestre, ela nos deixou livres para "criar nosso próprio movimento cultural-literário". Poderíamos falar sobre qualquer coisa, de qualquer forma que quiséssemos. Depois ela informou que poderíamos fazer qualquer coisa com aquilo que tínhamos ou não tínhamos feito (não seria mais preciso entregar ou apresentar o trabalho).
Mas o fato é que eu decidi fazer um vídeo. E aquilo foi um divisor de águas na minha vida. Há anos não tinha tanto estímulo para fazer alguma coisa. Certamente era melhor do que programar robôs e projetar circuitos...
E foi assim que dei uma guinada na vida e fui prestar vestibular em comunicação. Queria fazer cinema, mas eram cinco as disciplinas na segunda fase da Fuvest, contra duas da publicidade. E eu tinha clareza do quanto teria que remar para ter alguma base mínima para passar no vestibular.
Como consegui é tema para outro post.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Estágio no IPT
Durante meu estágio no IPT, eu construi um leitor parecido com o que hoje reconhece as placas dos carros para multar. Orgulho do papai!
Vi a galera comer muito "arroz selvagem" e suco de "tutti frutti" às sextas-feiras no restaurante da firma. Sem contar o insuperável sorvete interativo (sua imaginação define o sabor da sobremesa - fantástico!). Mas também tínhamos bons momentos (a sopa de queijo no inverno era demais!).
Fiz bons amigos que hoje não vejo mais.
Alguns with benefits.
Vi a galera comer muito "arroz selvagem" e suco de "tutti frutti" às sextas-feiras no restaurante da firma. Sem contar o insuperável sorvete interativo (sua imaginação define o sabor da sobremesa - fantástico!). Mas também tínhamos bons momentos (a sopa de queijo no inverno era demais!).
Fiz bons amigos que hoje não vejo mais.
Alguns with benefits.
sábado, 3 de janeiro de 2009
Inglaterra
Houve uma forte onda de Pagode nos anos 90.
Minha mãe quis me afastar disso e me mandou pra Londres, pra oxigenar um pouco a cabeça e olhar pra tudo em perspectiva. Funcionou. Foram 6 semanas de solidão que me salvaram de uma das vidas que eu poderia ter tido.
Não foi fácil. Eu era, realmente, uma estrangeira. Uma turista. Eu não cabia. Vi tantas coisas legais, conheci tanta gente, mas era como se eu estivesse alheia a tudo, numa bolha.
Lá eu não fui cosmopolita e independente como eu me orgulharia de ter sido. Lá as minhas velhas táticas não funcionavam. Lá eu não conquistei tudo o que quis. Lá eu poderia ter fortalecido algumas boas amizades. O problema é que lá, bem no fundo, eu queria estar aqui.
Mas eu não estava aqui, então eu tive que me virar.
Com isso descobri que eu sou capaz de me adaptar. Descobri que os limites que parecem existir pras nossas ações são, muitas vezes, criados por nós mesmos (e há muito terreno do outro lado da cerca). Me comportei de formas diferentes que ainda continuam disponíveis, se assim eu escolher.
A Inglaterra me ampliou os horizontes em todos os sentidos. Fez com que eu me encontrasse, pelo meu oposto.
E fez com que eu voltasse ainda mais brasileira, mas gostando menos de pagode.
Assim, alguns dias depois, eu fiz o que tinha que fazer...
Minha mãe quis me afastar disso e me mandou pra Londres, pra oxigenar um pouco a cabeça e olhar pra tudo em perspectiva. Funcionou. Foram 6 semanas de solidão que me salvaram de uma das vidas que eu poderia ter tido.
Não foi fácil. Eu era, realmente, uma estrangeira. Uma turista. Eu não cabia. Vi tantas coisas legais, conheci tanta gente, mas era como se eu estivesse alheia a tudo, numa bolha.
Lá eu não fui cosmopolita e independente como eu me orgulharia de ter sido. Lá as minhas velhas táticas não funcionavam. Lá eu não conquistei tudo o que quis. Lá eu poderia ter fortalecido algumas boas amizades. O problema é que lá, bem no fundo, eu queria estar aqui.
Mas eu não estava aqui, então eu tive que me virar.
Com isso descobri que eu sou capaz de me adaptar. Descobri que os limites que parecem existir pras nossas ações são, muitas vezes, criados por nós mesmos (e há muito terreno do outro lado da cerca). Me comportei de formas diferentes que ainda continuam disponíveis, se assim eu escolher.
A Inglaterra me ampliou os horizontes em todos os sentidos. Fez com que eu me encontrasse, pelo meu oposto.
E fez com que eu voltasse ainda mais brasileira, mas gostando menos de pagode.
Assim, alguns dias depois, eu fiz o que tinha que fazer...
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
São Pedro
Enquanto as distâncias iam diminuindo para a informação e para a economia, eu começava a percorrer algumas distâncias maiores, contadas em milhares de quilômetros.
Nos anos 90, minha mãe se exonerou do estado. Isso fez um bem danado para a renda familiar e nos possibilitou viajar para lugares diferentes de Ribeirão Preto e Franca, casa dos meus avós e primas.
A primeira vez que eu andei de avião eu o dirigi. Foi num teco-teco, em São Pedro, antes de chegarmos ao Hotel Fazenda Guarany. A gente estava justamente conversando no carro sobre a nossa vontade de andar de avião algum dia. Eis que meu pai vê um aeroporto na beira da estrada, decide entrar, e alguns minutos depois lá estávamos nós, voando...
Não foram poucas as vezes que errei na hora de puxar e empurrar o manche e o piloto teve que intervir. O mesmo talento que tenho para perder nos jogos de videogame coloquei em ação naquele vôo. Não preciso dizer que minha mãe não gostou nada da experiência.
É muito louco se aproximar demais de uma montanha de avião. De repente aquela forma geométrica verde quase lisa começa a ganhar textura, instantaneamente. Parece videoclipe.
Depois que voltamos para a terra firme, me diverti muito com um outro meio de transporte: o lombo do cavalo.
Viajar é muito bom.
Nos anos 90, minha mãe se exonerou do estado. Isso fez um bem danado para a renda familiar e nos possibilitou viajar para lugares diferentes de Ribeirão Preto e Franca, casa dos meus avós e primas.
A primeira vez que eu andei de avião eu o dirigi. Foi num teco-teco, em São Pedro, antes de chegarmos ao Hotel Fazenda Guarany. A gente estava justamente conversando no carro sobre a nossa vontade de andar de avião algum dia. Eis que meu pai vê um aeroporto na beira da estrada, decide entrar, e alguns minutos depois lá estávamos nós, voando...
Não foram poucas as vezes que errei na hora de puxar e empurrar o manche e o piloto teve que intervir. O mesmo talento que tenho para perder nos jogos de videogame coloquei em ação naquele vôo. Não preciso dizer que minha mãe não gostou nada da experiência.
É muito louco se aproximar demais de uma montanha de avião. De repente aquela forma geométrica verde quase lisa começa a ganhar textura, instantaneamente. Parece videoclipe.
Depois que voltamos para a terra firme, me diverti muito com um outro meio de transporte: o lombo do cavalo.
Viajar é muito bom.
domingo, 28 de dezembro de 2008
Para viver um grande amor
Os anos 90 foram os anos em que Barrados no Baile embalava os sonhos dos jovens de viverem um grande amor e uma grande adolescência.
Dos meus amores, não posso reclamar. Foram muitos, bastante diversos e mobilizaram em mim várias coisas bacanas. Esse post, ainda que talvez excessivamente sintético, é um tributo à participação de cada um deles (pelo menos dos mais importantes) na minha vida.
- Do namorado modelo, agradeço o despertar.
- Do namorado 10 anos mais velho, agradeço primeiramente a paixão. Agradeço igualmente a clareza e a honestidade infinitas.
- Do namorado ultimoanista, agradeço a proteção e a oportunidade de me ver cantora por um dia.
- Do namorado amigo-de-infância, agradeço aquelas férias.
- Do namorado poeta, agradeço a intensidade e os poemas publicados.
- Do namorado bucólico, agradeço a leveza e a liberdade que conquistei.
- Do namorado maluco-beleza, agradeço a energia e os sustos resultantes das frases de efeito.
- Do namorado comediante, agradeço as muitas risadas e todo o apoio.
- Do namorado aventureiro, agradeço os dias, as noites e os horizontes.
- Do namorado carioca, agradeço a recuperação, a boa forma e a lição.
- Do namorado GV-ista, agradeço a ajudinha e o CD.
- Do namorado literato, agradeço a minha própria ousadia e as infindáveis conversas.
Do namorado marido, o namorado definitivo, agradeço o bem-estar, o aconchego, o amor e a coragem para a tomada de grandes decisões.
Dos meus amores, não posso reclamar. Foram muitos, bastante diversos e mobilizaram em mim várias coisas bacanas. Esse post, ainda que talvez excessivamente sintético, é um tributo à participação de cada um deles (pelo menos dos mais importantes) na minha vida.
- Do namorado modelo, agradeço o despertar.
- Do namorado 10 anos mais velho, agradeço primeiramente a paixão. Agradeço igualmente a clareza e a honestidade infinitas.
- Do namorado ultimoanista, agradeço a proteção e a oportunidade de me ver cantora por um dia.
- Do namorado amigo-de-infância, agradeço aquelas férias.
- Do namorado poeta, agradeço a intensidade e os poemas publicados.
- Do namorado bucólico, agradeço a leveza e a liberdade que conquistei.
- Do namorado maluco-beleza, agradeço a energia e os sustos resultantes das frases de efeito.
- Do namorado comediante, agradeço as muitas risadas e todo o apoio.
- Do namorado aventureiro, agradeço os dias, as noites e os horizontes.
- Do namorado carioca, agradeço a recuperação, a boa forma e a lição.
- Do namorado GV-ista, agradeço a ajudinha e o CD.
- Do namorado literato, agradeço a minha própria ousadia e as infindáveis conversas.
Do namorado marido, o namorado definitivo, agradeço o bem-estar, o aconchego, o amor e a coragem para a tomada de grandes decisões.
sábado, 27 de dezembro de 2008
A escolha profissional
Nos anos 90 já estava a todo vapor a disseminação da ideologia pró-globalização. As pressões por competência, informação, produtividade, mobilidade (...) eram constantes. O fantasma do desemprego estrutural estava sempre por perto, nas reportagens praticamente diárias sobre a dificuldade de todos (e mais especialemnte dos jovens) conseguirem seu primeiro emprego.
Não passei impune por tudo isso. Não passei impune principalmente pelo que meus pais pensavam sobre tudo isso.
Não cursei o colegial regular. Não achava meu colégio suficientemente bom e, por alguma razão, não quis mudar para outro. Neguei todos. 8 ou 80. Com o apoio do meu pai.
Além da decepção com o colégio, existia o contraste entre a infelicidade da minha mãe - pessoa de humanas - e a indisfarçável empolgação do meu pai - pessoa de exatas. Comprei a idéia de que, com o pacotinho correto (o das exatas), minha vida seria boa.
Nessa época, já tinha uma grande experiência em renunciar - a ponto de não reconhecer - meus próprios desejos. Aí entra o apoio da minha mãe (na realidade, estou falando aqui do incentivo ao subterfúgio de questionar e suprimir as próprias vontades, sugerido em tantas outras ocasiões).
Em função dessa escolha, desviei da rota que me seria mais natural e vaguei insatisfeita e incompleta por aí, por muito tempo.
A questão estaria melhor resolvida se as origens do pensamento que desembocaram na escolha equivocada estivessem superados. Se as armadilhas estivessem mapeadas e não houvesse mais nenhum perigo.
Mas sei que eu ainda sou essencialmente a mesma. Com essa habilidade extrema de me esconder de mim mesma para não deixar vir à tona que, na verdade, eu preferiria mesmo era tomar o caminho mais arriscado.
Sou assim e é isso que me deixa triste.
Não passei impune por tudo isso. Não passei impune principalmente pelo que meus pais pensavam sobre tudo isso.
Não cursei o colegial regular. Não achava meu colégio suficientemente bom e, por alguma razão, não quis mudar para outro. Neguei todos. 8 ou 80. Com o apoio do meu pai.
Além da decepção com o colégio, existia o contraste entre a infelicidade da minha mãe - pessoa de humanas - e a indisfarçável empolgação do meu pai - pessoa de exatas. Comprei a idéia de que, com o pacotinho correto (o das exatas), minha vida seria boa.
Nessa época, já tinha uma grande experiência em renunciar - a ponto de não reconhecer - meus próprios desejos. Aí entra o apoio da minha mãe (na realidade, estou falando aqui do incentivo ao subterfúgio de questionar e suprimir as próprias vontades, sugerido em tantas outras ocasiões).
Em função dessa escolha, desviei da rota que me seria mais natural e vaguei insatisfeita e incompleta por aí, por muito tempo.
A questão estaria melhor resolvida se as origens do pensamento que desembocaram na escolha equivocada estivessem superados. Se as armadilhas estivessem mapeadas e não houvesse mais nenhum perigo.
Mas sei que eu ainda sou essencialmente a mesma. Com essa habilidade extrema de me esconder de mim mesma para não deixar vir à tona que, na verdade, eu preferiria mesmo era tomar o caminho mais arriscado.
Sou assim e é isso que me deixa triste.
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Interditada
Está rolando um bloqueio para escrever sobre os anos 90. Década de muitos assuntos privados e algumas escolhas erradas que eu não estou querendo revisitar...
domingo, 21 de dezembro de 2008
A melhor redação que escrevi na vida
Chico Buarque lançou seu primeiro livro, Estorvo, no início dos anos 90. E foi no início dos anos 90 que recebi os maiores incentivos para escrever. A maior entusiasta da minha carreira como escritora mirim foi a professora Dora.
Me lembro que como ela ficou inconsolável quando decidi sair da escola na 8ª série para entrar no curso técnico de Automação da Manufatura. "Você não vai escrever mais nenhuma redaçãozinha?" foi a única frase que ela conseguiu dizer. E tinha toda a razão.
A Dora pediu uma vez pra gente escrever uma descrição de um professor. Alguns dias antes, eu tinha usado um adjunto adverbial muito bem colocado (certamente por influência da "Tabacaria", de Fernando Pessoa) num outro texto. Recebi um mega elogio dela! Com a solicitação da descrição de um professor, identifiquei imediatamente a grande chance e pus minhas mãos à obra.
O texto que escrevi utilizava basicamente adjuntos adverbiais e adjetivos, todos em relação de oposição entre si. Terminava com "matematicamente metafórico, simplesmente complexo, comprovadamente humano". Reli o texto com a certeza de que aquela tarde procurando sinônimos e antônimos no dicionário tinha valido a pena. O texto tinha estilo, ritmo, força. Eu me sentia a própria herdeira do legado de Chico Buarque, para dizer o mínimo.
Alguns dias depois a Dora me chamou pra conversar e perguntou como foi o processo de escrita da redação. Contei toda a empreitada, ela agradeceu a explicação e, alguns dias depois, chegou a minha nota. Eu tinha tirado B.
Li muitas vezes a justificativa que acompanhava o B até conseguir entender o que tinha acontecido. Ela dizia que o objetivo não era que nós fizéssemos um texto construído, artificial. Como se os grandes escritores não trabalhassem muito em seus textos antes de serem publicados! Vai entender...
O mais legal de tudo foi que isso não abalou em nada minha confiança no meu texto, como seria de se esperar de mim. Apenas entendi naquele momento que critérios são critérios e que gosto não se discute. Segui feliz com a minha vida (e com meu texto).
Convicção é algo que realmente devemos praticar em tudo o que fizermos. Vive-se muito melhor quando se conta com ela.
Me lembro que como ela ficou inconsolável quando decidi sair da escola na 8ª série para entrar no curso técnico de Automação da Manufatura. "Você não vai escrever mais nenhuma redaçãozinha?" foi a única frase que ela conseguiu dizer. E tinha toda a razão.
A Dora pediu uma vez pra gente escrever uma descrição de um professor. Alguns dias antes, eu tinha usado um adjunto adverbial muito bem colocado (certamente por influência da "Tabacaria", de Fernando Pessoa) num outro texto. Recebi um mega elogio dela! Com a solicitação da descrição de um professor, identifiquei imediatamente a grande chance e pus minhas mãos à obra.
O texto que escrevi utilizava basicamente adjuntos adverbiais e adjetivos, todos em relação de oposição entre si. Terminava com "matematicamente metafórico, simplesmente complexo, comprovadamente humano". Reli o texto com a certeza de que aquela tarde procurando sinônimos e antônimos no dicionário tinha valido a pena. O texto tinha estilo, ritmo, força. Eu me sentia a própria herdeira do legado de Chico Buarque, para dizer o mínimo.
Alguns dias depois a Dora me chamou pra conversar e perguntou como foi o processo de escrita da redação. Contei toda a empreitada, ela agradeceu a explicação e, alguns dias depois, chegou a minha nota. Eu tinha tirado B.
Li muitas vezes a justificativa que acompanhava o B até conseguir entender o que tinha acontecido. Ela dizia que o objetivo não era que nós fizéssemos um texto construído, artificial. Como se os grandes escritores não trabalhassem muito em seus textos antes de serem publicados! Vai entender...
O mais legal de tudo foi que isso não abalou em nada minha confiança no meu texto, como seria de se esperar de mim. Apenas entendi naquele momento que critérios são critérios e que gosto não se discute. Segui feliz com a minha vida (e com meu texto).
Convicção é algo que realmente devemos praticar em tudo o que fizermos. Vive-se muito melhor quando se conta com ela.
sábado, 20 de dezembro de 2008
O irmão da Bia
Nos anos 90 foi lançado o Moving Sound, da Phillips. Não há quem não se lembre do cara no comercial tomando banho, com seu som em formato triangular preso no box tocando "Pump Up the Jam".
Eu voltava pra casa de ônibus escolar naquela época. Tinha um cara muito chato, irmão mais velho de uma menina que era fresca (ou seja, só um pouco menos chata do que ele), que voltava no ônibus com a gente. Eu odiava esse menino. Ele não respeitava nada nem ninguém, enchia demais o saco do meu irmão e era feio e nojento e tudo de ruim.
Mas um dia ele dançou o "Pump up the Jam" no ônibus e eu tive que dar o braço a torcer: nunca tinha visto um menino dançar tão gostoso alguma música assim. Em geral os meninos eram desajeitados.
Demorei um pouco para aceitar que alguém que eu detestava tanto pudesse fazer alguma coisa que eu admirasse.
Talvez essa tenha sido minha experiência mais marcante de superação do maniqueísmo infantil.
Eu voltava pra casa de ônibus escolar naquela época. Tinha um cara muito chato, irmão mais velho de uma menina que era fresca (ou seja, só um pouco menos chata do que ele), que voltava no ônibus com a gente. Eu odiava esse menino. Ele não respeitava nada nem ninguém, enchia demais o saco do meu irmão e era feio e nojento e tudo de ruim.
Mas um dia ele dançou o "Pump up the Jam" no ônibus e eu tive que dar o braço a torcer: nunca tinha visto um menino dançar tão gostoso alguma música assim. Em geral os meninos eram desajeitados.
Demorei um pouco para aceitar que alguém que eu detestava tanto pudesse fazer alguma coisa que eu admirasse.
Talvez essa tenha sido minha experiência mais marcante de superação do maniqueísmo infantil.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Cartas de amor e desamor
Nos anos 90 aconteceu a popularização do e-mail. Mas eu ainda escrevi muitas cartas antes do e-mail efetivamente ter um impacto na minha vida.
A sensação de receber cartas é incomparavelmente mais interessante do que a de receber e-mails. Especialmente as cartas de amor.
Cartas vêm escritas na letra da pessoa, muitas vezes borrifada com o perfume da pessoa e nunca escrita secamente, até porque escrever e postar cartas exige um esforço e, portanto, um envolvimento e uma intenção maior por parte do remetente de ver a mensagem chegar a seu destino.
Escrevi algumas cartas de amor para o meu primeiro namorado, um homem lindo e alto e cheio de histórias interessantes pra contar.
A história da conquista desse primeiro namoro é bem bonita. Teve direito a olhares, disputa entre amigos pelo amor da donzela, rosa roubada com recado nas folhas, aquela pontinha de ciúmes ao vê-lo abraçado com outras modelos na sessão de moda da revista Querida.
Infelizmente, o moço escreveu casal com "u" numa carta que me enviou. Acredite se quiser: aquilo foi demais pra mim. Óbvio que ele nunca soube que este foi o verdadeiro motivo da coisa mais cruel que fiz em toda minha vida: terminei um namoro à distância de 6 meses, por telefone, depois de 4 meses na base das correspondências. Lembro que fiz isso para não correr o risco de me encantar por ele mais uma vez e não ter coragem de levar a cabo minha decisão.
Óbvio que, se tivesse a cabeça de hoje, eu teria feito tudo diferente.
Antonio Caetano Cintra Neto, se um dia você procurar seu nome no Google e cair aqui, saiba que eu lamento profundamente pelo que aconteceu. Você era uma pessoa muito bacana, de verdade, não merecia isso. Espero que hoje você seja/esteja feliz.
Meu marido tem o palpite de que, se tivermos a chance de conversar com quem nos traumatizou, nos surpreenderemos ao perceber que esta pessoa talvez nem se lembre do que fez - tão preocupada que terá estado em cuidar de seus próprios traumas, causados por outras pessoas.
Ou talvez se lembre perfeitamente, mas revele que não tinha um único bom motivo pra fazer o que fez.
A sensação de receber cartas é incomparavelmente mais interessante do que a de receber e-mails. Especialmente as cartas de amor.
Cartas vêm escritas na letra da pessoa, muitas vezes borrifada com o perfume da pessoa e nunca escrita secamente, até porque escrever e postar cartas exige um esforço e, portanto, um envolvimento e uma intenção maior por parte do remetente de ver a mensagem chegar a seu destino.
Escrevi algumas cartas de amor para o meu primeiro namorado, um homem lindo e alto e cheio de histórias interessantes pra contar.
A história da conquista desse primeiro namoro é bem bonita. Teve direito a olhares, disputa entre amigos pelo amor da donzela, rosa roubada com recado nas folhas, aquela pontinha de ciúmes ao vê-lo abraçado com outras modelos na sessão de moda da revista Querida.
Infelizmente, o moço escreveu casal com "u" numa carta que me enviou. Acredite se quiser: aquilo foi demais pra mim. Óbvio que ele nunca soube que este foi o verdadeiro motivo da coisa mais cruel que fiz em toda minha vida: terminei um namoro à distância de 6 meses, por telefone, depois de 4 meses na base das correspondências. Lembro que fiz isso para não correr o risco de me encantar por ele mais uma vez e não ter coragem de levar a cabo minha decisão.
Óbvio que, se tivesse a cabeça de hoje, eu teria feito tudo diferente.
Antonio Caetano Cintra Neto, se um dia você procurar seu nome no Google e cair aqui, saiba que eu lamento profundamente pelo que aconteceu. Você era uma pessoa muito bacana, de verdade, não merecia isso. Espero que hoje você seja/esteja feliz.
Meu marido tem o palpite de que, se tivermos a chance de conversar com quem nos traumatizou, nos surpreenderemos ao perceber que esta pessoa talvez nem se lembre do que fez - tão preocupada que terá estado em cuidar de seus próprios traumas, causados por outras pessoas.
Ou talvez se lembre perfeitamente, mas revele que não tinha um único bom motivo pra fazer o que fez.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Depois daquela noite no Clube Ipê
A década de 90 é marcada pelo aumento de casos de AIDS. Nos anos 90 morreu Renato Russo. Freddie Mercury também. Cazuza tinha morrido no final dos 80, mas eu era pequena demais pra perceber a sua ausência.
Minha madrinha, que era atriz, era tão preocupada com a doença (possivelmente tinha muitos amigos e conhecidos infectados) que antecipou muitas das conversas sobre sexo, camisinha, auto-preservação, que eu fatalmente viria a ter com os adultos.
Aliás, pensando bem, essa minha madrinha sempre antecipava as coisas. Eu devo ter ganho meu primeiro absorvente aos 8 anos de idade, pois ela ganhou um kit da Johnsons e Johnsons que continha vários livrinhos, incluindo "Como falar sobre sexo com minha filha" e me deu. Vamos combinar que estava um pouco cedo para eu pensar nisso.
Sexo eu já sabia que existia desde beeeem cedo. Li aquele livro "De onde viemos?" que explicava tudo bem direitinho, ainda na infância. Mas o olhar menos "científico" para a questão eu tive pela primeira vez depois daquela noite no Clube Ipê.
Eu gostava muito de sair para as danceterias com as colegas de escola, especialmente pra poder conversar de madrugada, já no escuro, quando todas já estavam deitadas na cama. Naquele dia, a conversa se centrou na Milena discorrendo sobre suas recentes ousadias durante uma ficada com um moço. Não se tratava de nada mais do toques em locais estratégicos, mas eram suficientes para que as meninas perguntassem, abestalhadas: "E você deixou???". Ela respondia a tudo com bastante tranquilidade dizendo que sim, visto que "ele queria e ela também". A lógica me pareceu bastante razoável.
Ainda demorou um tanto para eu querer coisas semelhantes, mas a lembrança daquele raciocínio inquestionável certamente tornou tudo mais fácil, quando foi a minha vez.
Minha madrinha, que era atriz, era tão preocupada com a doença (possivelmente tinha muitos amigos e conhecidos infectados) que antecipou muitas das conversas sobre sexo, camisinha, auto-preservação, que eu fatalmente viria a ter com os adultos.
Aliás, pensando bem, essa minha madrinha sempre antecipava as coisas. Eu devo ter ganho meu primeiro absorvente aos 8 anos de idade, pois ela ganhou um kit da Johnsons e Johnsons que continha vários livrinhos, incluindo "Como falar sobre sexo com minha filha" e me deu. Vamos combinar que estava um pouco cedo para eu pensar nisso.
Sexo eu já sabia que existia desde beeeem cedo. Li aquele livro "De onde viemos?" que explicava tudo bem direitinho, ainda na infância. Mas o olhar menos "científico" para a questão eu tive pela primeira vez depois daquela noite no Clube Ipê.
Eu gostava muito de sair para as danceterias com as colegas de escola, especialmente pra poder conversar de madrugada, já no escuro, quando todas já estavam deitadas na cama. Naquele dia, a conversa se centrou na Milena discorrendo sobre suas recentes ousadias durante uma ficada com um moço. Não se tratava de nada mais do toques em locais estratégicos, mas eram suficientes para que as meninas perguntassem, abestalhadas: "E você deixou???". Ela respondia a tudo com bastante tranquilidade dizendo que sim, visto que "ele queria e ela também". A lógica me pareceu bastante razoável.
Ainda demorou um tanto para eu querer coisas semelhantes, mas a lembrança daquele raciocínio inquestionável certamente tornou tudo mais fácil, quando foi a minha vez.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Acidentes pessoais
Os anos 90 foram os anos de ouro do Vôlei. Giovanni levantava os suspiros da torcida feminina. O Tande, com seu saque Jornada nas Estrelas, levava para o infinito a esperança de vitória nos Jogos Olímpicos. E deu certo!
Enquanto isso, nas quadras do já extinto Galileu Galilei, às terças e quintas à tarde (e em todos os recreios), as meninas da 7ª série apefeiçoavam suas sofríveis habilidades no trato com a bola e com a rede. Foram jogar também em outros colégios, tendo ficado invictas na disputa de últimas colocadas em todos os torneios de que participaram.
Eu, perto daquela mulherada, até que jogava bem. Conseguia perder pouquíssimos saques, dar impulsões e fazer alguns bloqueios, dar umas boas cassetadas na bola e vê-las atingindo o solo do outro lado.
Numa dessas ocasiões - num amistoso de véspera de campeonato para o qual eu estava me preparando com afinco e, por causa dele, corri para tirar meu RG - subi para um bloqueio e desci em cima do joelho de uma adversária que invadiu, estabeleceu seus exércitos e começou a pagar IPTU do nosso lado da quadra. Meu pé ireito virou no joelho dela e chegou ao chão em posição de romper todos os seus ligamentos laterais. Quando acordei já estava na sala da coordenação, com o pé enterrado embaixo de uma montanha de gelo.
Ali soube que a Alice, a professora de educação física, tinha me carregado de cavalinho durante todo o trajeto - que incluia uma exibição especial no pátio onde acontecia o recreio do colegial. Um vexame de grandes proporções para uma menina de 13 anos. Rezava para que o Fernando do 2ºB estivesse bem distraído nessa hora.
O episódio me rendeu: 3 meses de imobilização, 2 de fisioterapia, diversas radiografias que integraram as palestras de um dos maiores especialistas em tornozelos de São Paulo, além da volta para a escola apoiada uma bengala feita de segmentos de cabo de vassoura - mais um dos projetos do meu pai. Uma boa alma nos emprestou uma muleta de verdade alguns dias depois.
Bed of Roses, do Bon Jovi, era, naquele momento dos anos 90, um grande sucesso. Ironicamente, foi a trilha sonora desse tempo que passei na cama. Uma cama equipada com três listas telefônicas em cada pé para que a perna ficasse num nível mais alto que a cabeça. Exatamente o que o Bon Jovi tinha em mente.
E foi assim que a menina obediente que nunca tinha se acidentado conquistou uma bela história pra contar.
Enquanto isso, nas quadras do já extinto Galileu Galilei, às terças e quintas à tarde (e em todos os recreios), as meninas da 7ª série apefeiçoavam suas sofríveis habilidades no trato com a bola e com a rede. Foram jogar também em outros colégios, tendo ficado invictas na disputa de últimas colocadas em todos os torneios de que participaram.
Eu, perto daquela mulherada, até que jogava bem. Conseguia perder pouquíssimos saques, dar impulsões e fazer alguns bloqueios, dar umas boas cassetadas na bola e vê-las atingindo o solo do outro lado.
Numa dessas ocasiões - num amistoso de véspera de campeonato para o qual eu estava me preparando com afinco e, por causa dele, corri para tirar meu RG - subi para um bloqueio e desci em cima do joelho de uma adversária que invadiu, estabeleceu seus exércitos e começou a pagar IPTU do nosso lado da quadra. Meu pé ireito virou no joelho dela e chegou ao chão em posição de romper todos os seus ligamentos laterais. Quando acordei já estava na sala da coordenação, com o pé enterrado embaixo de uma montanha de gelo.
Ali soube que a Alice, a professora de educação física, tinha me carregado de cavalinho durante todo o trajeto - que incluia uma exibição especial no pátio onde acontecia o recreio do colegial. Um vexame de grandes proporções para uma menina de 13 anos. Rezava para que o Fernando do 2ºB estivesse bem distraído nessa hora.
O episódio me rendeu: 3 meses de imobilização, 2 de fisioterapia, diversas radiografias que integraram as palestras de um dos maiores especialistas em tornozelos de São Paulo, além da volta para a escola apoiada uma bengala feita de segmentos de cabo de vassoura - mais um dos projetos do meu pai. Uma boa alma nos emprestou uma muleta de verdade alguns dias depois.
Bed of Roses, do Bon Jovi, era, naquele momento dos anos 90, um grande sucesso. Ironicamente, foi a trilha sonora desse tempo que passei na cama. Uma cama equipada com três listas telefônicas em cada pé para que a perna ficasse num nível mais alto que a cabeça. Exatamente o que o Bon Jovi tinha em mente.
E foi assim que a menina obediente que nunca tinha se acidentado conquistou uma bela história pra contar.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
O primeiro beijo
Meu primeiro beijo aconteceu no condomínio do meu tio, depois de um moço chamado Luis (e apelidado Camões) ter se encantado por uma menina "de estilo" que viu jogando vôlei na quadra do prédio.
O "estilo" a que ele se referia era o prenúncio do grunge, movimento da música e da moda que aconteceu poucos anos depois, em meados dos anos 90. Calça de moleton trazida à força até a altura dos joelhos, camiseta mais-larga-impossível para tirar qualquer vestígio de curva que pudesse ainda estar sugerida, cabelo amarrado de qualquer jeito num rabo de cavalo preso com elástico feito de meia fina.
Paquera durante o jogo, telefonemas durante toda a semana, "love of my life" tocada no violão do outro lado da linha e a certeza de ser única, diferente de todas as outras do universo.
Uma vez que estava "amando e sendo amada", cheguei à conclusao de que precisava ser menos negligente com meu visual. Fiz uma série de pequenos ajustes que estavam ao meu alcance e lá estava eu na semana seguinte, toda bonitinha, para emprestar um livro que ele nunca leria (nem devolveria).
O que aconteceu foi que o moço não encontrou a pessoa única que ele tinha idealizado quando me viu pela primeira vez. E eu desperdicei meu primeiro beijo com alguém que já estava visivelmente decepcionado com a pessoa que encontrou depois de uma semana.
Daí pra frente tive a certeza de que o melhor que temos a fazer em se tratando de relacionamentos é nos mostrar como somos, sempre.
E torcer para que o que somos tenha liga com o que o outro é.
O "estilo" a que ele se referia era o prenúncio do grunge, movimento da música e da moda que aconteceu poucos anos depois, em meados dos anos 90. Calça de moleton trazida à força até a altura dos joelhos, camiseta mais-larga-impossível para tirar qualquer vestígio de curva que pudesse ainda estar sugerida, cabelo amarrado de qualquer jeito num rabo de cavalo preso com elástico feito de meia fina.
Paquera durante o jogo, telefonemas durante toda a semana, "love of my life" tocada no violão do outro lado da linha e a certeza de ser única, diferente de todas as outras do universo.
Uma vez que estava "amando e sendo amada", cheguei à conclusao de que precisava ser menos negligente com meu visual. Fiz uma série de pequenos ajustes que estavam ao meu alcance e lá estava eu na semana seguinte, toda bonitinha, para emprestar um livro que ele nunca leria (nem devolveria).
O que aconteceu foi que o moço não encontrou a pessoa única que ele tinha idealizado quando me viu pela primeira vez. E eu desperdicei meu primeiro beijo com alguém que já estava visivelmente decepcionado com a pessoa que encontrou depois de uma semana.
Daí pra frente tive a certeza de que o melhor que temos a fazer em se tratando de relacionamentos é nos mostrar como somos, sempre.
E torcer para que o que somos tenha liga com o que o outro é.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Namorinho de portão
Os anos 90 já eram frenéticos, São Paulo já era enorme, mas eu tive a oportunidade de experimentar o "namorinho de portão" em outras cidades. Na verdade, dois: um em Osasco, outro em Ribeirão Preto.
O de Osasco foi sem graça. Muita pressão das amigas mais velhas e excessivamente urbanas. O moço era bonito, mas a sensação era infinita de não estar preparada para beijo nenhum, tentando explicar isso pras pessoas e só recebendo em retorno chantagens e um certo olhar de tédio. Ainda bem que o primeiro beijo ficou pra uma outra ocasião.
Já o de Ribeirão, foi bem gostoso. Ainda não foi dessa vez o beijo, mas valeram as conversas bobas à luz da lua, a lerdeza característica dos tímidos, o tempo que não passava para a gente se admirar melhor, o pensamento longo, a sonoridade bonita da palavra "ele".
E só.
O de Osasco foi sem graça. Muita pressão das amigas mais velhas e excessivamente urbanas. O moço era bonito, mas a sensação era infinita de não estar preparada para beijo nenhum, tentando explicar isso pras pessoas e só recebendo em retorno chantagens e um certo olhar de tédio. Ainda bem que o primeiro beijo ficou pra uma outra ocasião.
Já o de Ribeirão, foi bem gostoso. Ainda não foi dessa vez o beijo, mas valeram as conversas bobas à luz da lua, a lerdeza característica dos tímidos, o tempo que não passava para a gente se admirar melhor, o pensamento longo, a sonoridade bonita da palavra "ele".
E só.
domingo, 14 de dezembro de 2008
O preço da cantina
Apesar de entender menos sobre política e economia, eu me sentia mais ativa para interferir nessas questões do meu microcosmo, nos anos 90.
Nos anos 90, o McDonald's era o mais forte, quase exclusivo, negócio de fast food no Brasil. Ir ao McDonald's era programa resevado para dias especiais, na minha vida. Foi motivo de muita revolta descobrir que o preço do hamburguer da cantina da escola estava mais alto do que o preço pago no McDonald's pela mesma iguaria.
Organizei um movimento típico de Speaker's Corner, em Londres, em que pessoas comuns sobem em seus banquinhos e fazem seus discursos livremente para a multidão ouvir. Pesquisei todos os custos de um negócio como o McDonald's - valor do aluguel em shoppings, taxas de franquia, marketing, reforma... - e montei numa cartolina minha argumentação de ataque. Por uns 3 dias levei minha cartolina para a frente da cantina e falei com atendentes e clientes sobre o absurdo do preço do hamburguer. Até que o preço baixou.
Sei que conquistei a antipatia de muita gente com aquela petulância. Mas me sentia amparada pela democracia e dona de um orgulho infinito por mim mesma. Especialmente porque não foi fácil reunir coragem para começar com a falação. A cartolina voltou umas três vezes pra casa antes da primeira frase sair. Superação.
Segui pela vida com essa autovalorizada braveza por bastante tempo ainda. Só muito depois fui percebendo que outras estratégias também eram possíveis e algumas vezes até mais eficazes.
Ainda não cheguei ao ponto de entender completamente (e de atuar segundo) aquela frase do Mauro, meu facilitador de dinâmicas dos grupos, que uma vez disse para um colega: "fala pra ela [no caso, a mãe dele] que o afeto também é revolucionário".
Ainda sou guerreira. Mas agora um pouco mais macia, um pouco mais diplomática, um pouco mais política, um pouco mais em dúvida sobre se isso não é, também, ser um pouco mais passiva.
Nos anos 90, o McDonald's era o mais forte, quase exclusivo, negócio de fast food no Brasil. Ir ao McDonald's era programa resevado para dias especiais, na minha vida. Foi motivo de muita revolta descobrir que o preço do hamburguer da cantina da escola estava mais alto do que o preço pago no McDonald's pela mesma iguaria.
Organizei um movimento típico de Speaker's Corner, em Londres, em que pessoas comuns sobem em seus banquinhos e fazem seus discursos livremente para a multidão ouvir. Pesquisei todos os custos de um negócio como o McDonald's - valor do aluguel em shoppings, taxas de franquia, marketing, reforma... - e montei numa cartolina minha argumentação de ataque. Por uns 3 dias levei minha cartolina para a frente da cantina e falei com atendentes e clientes sobre o absurdo do preço do hamburguer. Até que o preço baixou.
Sei que conquistei a antipatia de muita gente com aquela petulância. Mas me sentia amparada pela democracia e dona de um orgulho infinito por mim mesma. Especialmente porque não foi fácil reunir coragem para começar com a falação. A cartolina voltou umas três vezes pra casa antes da primeira frase sair. Superação.
Segui pela vida com essa autovalorizada braveza por bastante tempo ainda. Só muito depois fui percebendo que outras estratégias também eram possíveis e algumas vezes até mais eficazes.
Ainda não cheguei ao ponto de entender completamente (e de atuar segundo) aquela frase do Mauro, meu facilitador de dinâmicas dos grupos, que uma vez disse para um colega: "fala pra ela [no caso, a mãe dele] que o afeto também é revolucionário".
Ainda sou guerreira. Mas agora um pouco mais macia, um pouco mais diplomática, um pouco mais política, um pouco mais em dúvida sobre se isso não é, também, ser um pouco mais passiva.
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