E eis que termina o período destinado a falar sobre os anos 80 nesse blog. Amanhã, dia do aniversário do meu pai, começa o mês prometido para a década de 90.
Da lista de posts que eu pretendia desenvolver, faltou apenas aqueles sobre:
- termos ganho o prêmio originalidade num campeonato de pipas da escola do meu irmão;
- minha mãe ser uma guerreira e meu pai e eu irmos buscar ela no ponto de ônibus tarde da noite, voltando do trabalho, com meu irmão na barriga;
- eu muitas vezes gostar mais de acompanhar o jogo de buraco dos adultos do que as brincadeiras das crianças;
- uma pêra ter sido a fruta mais gostosa que já comi na minha vida;
- eu ter tido o privilégio de ter uma coleção de disquinhos de histórias da melhor qualidade, musicado pelos grandes ídolos da MPB;
- eu ter participado de rodas de cantoria em muitos churrascos que aconteceram aqui em casa e em reuniões na casa da minha madrinha;
- eu ter passado muita vergonha com essa mesma minha madrinha que dançava comigo no meio dos shoppings (ela era atriz) e assim ter me acostumado a não ter tanto medo da exposição e do ridículo.
Fica a lista registrada. Quem sabe eu não preencho aquelas datas que ficaram vagas em novembro e início de dezembro, em algum outro momento (sim, descobrir essa funcionalidade no blogger foi libertador!).
Por ora, passo para uma nova fase: posts sobre a pré-adolescência e adolescência. Vamos ver como isso se dará.
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Água
Acredito que meus descendentes lerão o post abaixo com a mesma incredulidade que experimentamos quando pessoas nos dizem que nadavam no Rio Tietê.
Tenho certeza que as gerações vindouras não terão a mesma felicidade que eu tive nos anos 80, época em que meu contato com a água era muito mais frequente, duradouro e aproveitado.
Por exemplo... eu e minhas primas inventamos o "banho de caneca": uma de nós agachava e a outra, depois de encher a leiteira até a boca, avisava a outra para que prendesse a respiração e, em seguida, despejava aquele montaréu de água caudalosa de sua cabeça. Havia uma velocidade certa que tornava tudo mais delicioso: nem tão rápido que a água não descesse como uma carícia, nem tão devagar se não deixasse o cabelo bem liso enquanto escorria. Era uma curtição.
Regar as plantas do quintal também era uma tarefa que eu gostava de realizar. Como a mangueira era curta, eu tinha que diminuir a abertura para aumentar a pressão e encontrar a inclinação correta para que a água alcançasse as plantas mais distantes. Me divertia com os desenhos que a água formava ao sair da mangueira. Gostava também quando conseguia produzir uma atmosfera toda respingada e formava arco-irís bem ao alcance da minha mão.
Gostava de lavar carro e banheiro, de escorregar nos azulejos cheios de sabão, de molhar toda a roupa num dia de sol.
Também tomava muito banho de banheira. Quando era bem pequena, usava o espaldar como escorregador e, na queda, espalhava água no banheiro inteiro. Quando maior, ficava horas submersa, jogando a cabeça de um lado pra outro, fazendo os cabelos mexerem gostoso com o couro cabeludo. A água tão quentinha ia aquecendo e enrrugando a pele.
Uma vez, participei de um banho de esguicho no Gávea. Um professor de educação física ficava bem longe com uma mangueirona de bombeiro, molhando a meninada já preparada com seus trajes de banho, com autorização assinada pelos pais.
No Gávea também, num dia de muito calor, participei de uma desobediência coletiva em que toda a 4ª série invadiu os banheiros dos funcionários, se encharcou de água fria e saiu pingando pelos corredores de tapetes verdes daquela área restrita destinada ao pessoal da administração.
Naquele dia eu realmente não entendi nada. Sempre fui uma menina exemplar, obediente, que evitava broncas a todo custo. Relutei em participar da farra, mas o calor estava demais. Quando fomos descobertos, me arrependi, fiquei precupada, pensei que fosse perder a bolsa de estudos, tudo de ruim.
Mas o que aconteceu foi que os adultos se preocuparam muito mais com a nossa saúde do que com o tapete. Arrumaram toalhas e uniformes sequinhos pra gente vestir, foram atenciosos e amáveis.
Deve ser o poder da água na minha vida, que transmuta tudo o que há de ruim e devolve em tudo que há de bom.
Tenho certeza que as gerações vindouras não terão a mesma felicidade que eu tive nos anos 80, época em que meu contato com a água era muito mais frequente, duradouro e aproveitado.
Por exemplo... eu e minhas primas inventamos o "banho de caneca": uma de nós agachava e a outra, depois de encher a leiteira até a boca, avisava a outra para que prendesse a respiração e, em seguida, despejava aquele montaréu de água caudalosa de sua cabeça. Havia uma velocidade certa que tornava tudo mais delicioso: nem tão rápido que a água não descesse como uma carícia, nem tão devagar se não deixasse o cabelo bem liso enquanto escorria. Era uma curtição.
Regar as plantas do quintal também era uma tarefa que eu gostava de realizar. Como a mangueira era curta, eu tinha que diminuir a abertura para aumentar a pressão e encontrar a inclinação correta para que a água alcançasse as plantas mais distantes. Me divertia com os desenhos que a água formava ao sair da mangueira. Gostava também quando conseguia produzir uma atmosfera toda respingada e formava arco-irís bem ao alcance da minha mão.
Gostava de lavar carro e banheiro, de escorregar nos azulejos cheios de sabão, de molhar toda a roupa num dia de sol.
Também tomava muito banho de banheira. Quando era bem pequena, usava o espaldar como escorregador e, na queda, espalhava água no banheiro inteiro. Quando maior, ficava horas submersa, jogando a cabeça de um lado pra outro, fazendo os cabelos mexerem gostoso com o couro cabeludo. A água tão quentinha ia aquecendo e enrrugando a pele.
Uma vez, participei de um banho de esguicho no Gávea. Um professor de educação física ficava bem longe com uma mangueirona de bombeiro, molhando a meninada já preparada com seus trajes de banho, com autorização assinada pelos pais.
No Gávea também, num dia de muito calor, participei de uma desobediência coletiva em que toda a 4ª série invadiu os banheiros dos funcionários, se encharcou de água fria e saiu pingando pelos corredores de tapetes verdes daquela área restrita destinada ao pessoal da administração.
Naquele dia eu realmente não entendi nada. Sempre fui uma menina exemplar, obediente, que evitava broncas a todo custo. Relutei em participar da farra, mas o calor estava demais. Quando fomos descobertos, me arrependi, fiquei precupada, pensei que fosse perder a bolsa de estudos, tudo de ruim.
Mas o que aconteceu foi que os adultos se preocuparam muito mais com a nossa saúde do que com o tapete. Arrumaram toalhas e uniformes sequinhos pra gente vestir, foram atenciosos e amáveis.
Deve ser o poder da água na minha vida, que transmuta tudo o que há de ruim e devolve em tudo que há de bom.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Avareza
A minha infância nunca foi repleta de brinquedos caros.
O piano citado anteriormente - em que eu supostamente deveria treinar - era emprestado e tinha um monte de teclas desencapadas (da época em que o coitado ficou encostado na marcenaria do dono que, por sua vez, herdou aquela coisa e nunca soube o que fazer com ela).
Com meu irmão, brincava de parque de diversões. Eu era "dona" de uma parte dos brinquedos e ele, de outra. O brinquedo mais disputado era o ônibus leito. Consistia em deitar num pedação de carpete (de forro, pra ser mais exata) e ser puxado em alta velocidade pela extensão da sala vazia (sim, quase não existiam móveis na sala naquela época).
Para brincar de casinha em dias de chuva, eu envergava um colchão e o colocava entre os batentes da porta (percebam a qualidade dos colchões de que dispunhamos naquele tempo). Parecia mais um iglu do que uma casinha.
Se tive muitas figurinhas, foi por ter conseguido rapelar tantas. Devo ter comprado uns 3 ou 4 envelopinhos em toda minha vida.
De forma que, no dia em que ganhei uma caixa de lápis de cor de 36 cores, ela se tornou a preciosidade da minha existência. Guardava num lugar secreto, tinha ciúmes, passava muito tempo ensaiando combinações de cores que nunca passavam para o papel, para não gastar.
Isso eu devo à minha avó. Guardar sempre as melhores coisas para estarem disponíveis nesse tempo que não existe e nunca existirá: o futuro. Assim me neguei muitos deleites na infância e na adolescência. Assim deixei de colorir muitos dos meus dias. Assim, assim.
O piano citado anteriormente - em que eu supostamente deveria treinar - era emprestado e tinha um monte de teclas desencapadas (da época em que o coitado ficou encostado na marcenaria do dono que, por sua vez, herdou aquela coisa e nunca soube o que fazer com ela).
Com meu irmão, brincava de parque de diversões. Eu era "dona" de uma parte dos brinquedos e ele, de outra. O brinquedo mais disputado era o ônibus leito. Consistia em deitar num pedação de carpete (de forro, pra ser mais exata) e ser puxado em alta velocidade pela extensão da sala vazia (sim, quase não existiam móveis na sala naquela época).
Para brincar de casinha em dias de chuva, eu envergava um colchão e o colocava entre os batentes da porta (percebam a qualidade dos colchões de que dispunhamos naquele tempo). Parecia mais um iglu do que uma casinha.
Se tive muitas figurinhas, foi por ter conseguido rapelar tantas. Devo ter comprado uns 3 ou 4 envelopinhos em toda minha vida.
De forma que, no dia em que ganhei uma caixa de lápis de cor de 36 cores, ela se tornou a preciosidade da minha existência. Guardava num lugar secreto, tinha ciúmes, passava muito tempo ensaiando combinações de cores que nunca passavam para o papel, para não gastar.
Isso eu devo à minha avó. Guardar sempre as melhores coisas para estarem disponíveis nesse tempo que não existe e nunca existirá: o futuro. Assim me neguei muitos deleites na infância e na adolescência. Assim deixei de colorir muitos dos meus dias. Assim, assim.
sábado, 6 de dezembro de 2008
Eu, bebê.
Existem memórias que nao são nossas, mas acabam integrando nossa história como se fossem. É o caso do "dia em que a família inteira passou mal".
Meu pai conta que foram todos comer num restaurante e a comida estava estragada. Eu me salvei pois só comia papinha naquela época. Até hoje ele se admira de naquele dia - eu tinha 1 ou 2 anos - eu parecer ter percebido que algo não ia bem com as pessoas. Não amolei em momento algum. Fiquei a tarde inteira brincado sozinha, quietinha, com meus brinquedos.
Também ele contava que eu praticamente nasci de olho aberto e saí da maternidade já querendo comer o mundo com os olhos.
O fato de meu pai ter me contado essas e outras histórias sobre mim me fez ter uma imagem sobrenatural, extraordinária, de mim mesma bebê.
Há alguns meses meu pai transformou uns filmes super 8, que estávam há muito tempo guardados sem termos forma de asistir, em DVD. Foi muito estranho ver meus gestos, meus interesses, meus movimentos, minhas birras. Elas eram típicas de um bebê como qualquer outro. Eu não era mais brilhante que ninguém, afinal!
A corujisse de um pai, essa sim, pode ser extraordinária, brilhante, sobrenatural.
Meu pai conta que foram todos comer num restaurante e a comida estava estragada. Eu me salvei pois só comia papinha naquela época. Até hoje ele se admira de naquele dia - eu tinha 1 ou 2 anos - eu parecer ter percebido que algo não ia bem com as pessoas. Não amolei em momento algum. Fiquei a tarde inteira brincado sozinha, quietinha, com meus brinquedos.
Também ele contava que eu praticamente nasci de olho aberto e saí da maternidade já querendo comer o mundo com os olhos.
O fato de meu pai ter me contado essas e outras histórias sobre mim me fez ter uma imagem sobrenatural, extraordinária, de mim mesma bebê.
Há alguns meses meu pai transformou uns filmes super 8, que estávam há muito tempo guardados sem termos forma de asistir, em DVD. Foi muito estranho ver meus gestos, meus interesses, meus movimentos, minhas birras. Elas eram típicas de um bebê como qualquer outro. Eu não era mais brilhante que ninguém, afinal!
A corujisse de um pai, essa sim, pode ser extraordinária, brilhante, sobrenatural.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Palavras de criança
Aproveitando o post anterior sobre palavras escritas, vale a pena escrever sobre memórias envolvendo minhas palavras faladas.
Uma das primeiras coisas que minha mãe me ensinou a falar foi meu número de telefone. Imaginem um toquinho de gente falando "869-2165". O plano ela era que, caso a gente se perdesse, quem achasse pudesse ligar em casa. Foi exatamente isso que eu fiz quando me perdi no CEASA. Lembro vagamente de algumas cenas desse dia.
Outra coisa que minha avó sempre se lembra é que eu e meu irmão nem ligávamos quando algum brinquedo quebrava. A gente falava "papai conseita" e continuava brincando com alguma outra coisa até meu pai chegar do trabalho.
Eu chamava bolacha de "Pa-ti-tum". Ninguém sabe muito bem de onde eu tirei essa palavra, mas desconfio que essa é a onomatopéia referente ao barulho que o maxilar do meu pai faz quando ele come alguma coisa crocante.
Agora, a história mais engraçada envolvendo coisas que eu falei (e que minha tia não me deixa esquecer) e aconteceu quando eu estava mais grandinha, falando frases mais completas.
Foi assim:
Meu pai e meu tio deram pra comentar sobre os atributos femininos traseiros, comparando-os ao formato das frutas. Cometeram o erro primário cometido por todos os adultos em algum momento: o de considerar que a criança não está prestando atenção na conversa ou que, caso esteja, nunca fará nada com as informações obtidas.
Pois bem: aquele ano era o ano em que o fio dental estava sendo lançado. E eis que uma das pioneiras passou ao lado do meu baldinho de areia e, voila!, o formato era exatamente o formato da pêra! Saí em disparada pela praia atrás do meu pai gritando: "Pai, olha a bunda que você gosta!". Minha tia ri até hoje das caras enverganhadíssimas do meu pai e da moça (que no final das contas deve ter achado uma péssima idéia ter comprado aquele biquini diferente).
Eu só me lembro da minha sincera preocupação em fazer com que meu pai entendesse o que eu estava dizendo (ele estranhamente parecia não estar me ouvindo, apesar de eu estar falando bem alto).
Esse episódio talvez tenha sido a minha porta de entrada para o mundo dos adultos, no sentido de entender um pouco melhor os conceitos de público e privado nas comunicações, especialmente quando o assunto envolve sexo.
Freud explica, mas explica sempre atrasado e nunca para crianças.
Uma das primeiras coisas que minha mãe me ensinou a falar foi meu número de telefone. Imaginem um toquinho de gente falando "869-2165". O plano ela era que, caso a gente se perdesse, quem achasse pudesse ligar em casa. Foi exatamente isso que eu fiz quando me perdi no CEASA. Lembro vagamente de algumas cenas desse dia.
Outra coisa que minha avó sempre se lembra é que eu e meu irmão nem ligávamos quando algum brinquedo quebrava. A gente falava "papai conseita" e continuava brincando com alguma outra coisa até meu pai chegar do trabalho.
Eu chamava bolacha de "Pa-ti-tum". Ninguém sabe muito bem de onde eu tirei essa palavra, mas desconfio que essa é a onomatopéia referente ao barulho que o maxilar do meu pai faz quando ele come alguma coisa crocante.
Agora, a história mais engraçada envolvendo coisas que eu falei (e que minha tia não me deixa esquecer) e aconteceu quando eu estava mais grandinha, falando frases mais completas.
Foi assim:
Meu pai e meu tio deram pra comentar sobre os atributos femininos traseiros, comparando-os ao formato das frutas. Cometeram o erro primário cometido por todos os adultos em algum momento: o de considerar que a criança não está prestando atenção na conversa ou que, caso esteja, nunca fará nada com as informações obtidas.
Pois bem: aquele ano era o ano em que o fio dental estava sendo lançado. E eis que uma das pioneiras passou ao lado do meu baldinho de areia e, voila!, o formato era exatamente o formato da pêra! Saí em disparada pela praia atrás do meu pai gritando: "Pai, olha a bunda que você gosta!". Minha tia ri até hoje das caras enverganhadíssimas do meu pai e da moça (que no final das contas deve ter achado uma péssima idéia ter comprado aquele biquini diferente).
Eu só me lembro da minha sincera preocupação em fazer com que meu pai entendesse o que eu estava dizendo (ele estranhamente parecia não estar me ouvindo, apesar de eu estar falando bem alto).
Esse episódio talvez tenha sido a minha porta de entrada para o mundo dos adultos, no sentido de entender um pouco melhor os conceitos de público e privado nas comunicações, especialmente quando o assunto envolve sexo.
Freud explica, mas explica sempre atrasado e nunca para crianças.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Livros infantis
Os anos 80 foram repletos de palavras. Houve, no Brasil, um boom na literatura infanto-juvenil, impulsionada pela priorização dada à formação de leitores e embalada pelo discurso de redemocratização do país.
Minha mãe nunca me deu livros para ler sem que ela própria lesse um por um até aprovar a qualidade e os "ensinamentos" que as histórias traziam em seu bojo.
Contos de fadas tradicionais, por exemplo, eu conheci fora de casa. Minha mãe nunca quis que eu me educasse para esperar ser salva por um príncipe encantado, nem que eu acreditasse que pessoas eram sempre boas ou sempre más, nem que eu tivesse a ilusão de que ser bela me resolveria todos os problemas.
Alguns livros que eu li quando pequena guardo até hoje por serem realmente de grande significado para mim.
"Pequenininha" é um deles. Conta a história de uma menina que passa um dia na casa da avó e descobre um quarto de coisas antigas. É narrado por uma pessoa adulta - provavelmente o pai da Maia - que fica matutando na sua vontade de guardar a menina no bolso. No final, ele acaba concluindo que se fizesse isso, ela nunca iria perdoá-o por ter deixar de viver tantas aventuras.
"Procurando firme" é a história de uma princesa muito geniosa, chamada Linda Flor, que não gostava dos príncipes que apareciam para salvá-la, que ficava com vontade de fazer os cursos que o irmão fazia para correr o mundo (ao invés dos que ela fazia para ser prendada) e um dia deu um susto em todo mundo quando decidiu colocar seus planos em prática. Saiu "procurando não sei o quê, mas procurando firme!"
Um outro que eu gosto bastante é do "Nicolau teve uma idéia", sobre um homem que ia falando com as pessoas e ia aumentando seu repertório de idéias. Gostava do conceito, mas pra dizer a verdade, nem me lembro muito bem de como terminava.
Esses livros me ensinaram que mais legal é ser pró-ativo, se lançar, ir descobrindo coisas e ir se descobrindo no caminho. Que é legal refletir e ter memórias. Que tendo as perguntas, algum dia a gente chega nas respostas.
Minha mãe nunca me deu livros para ler sem que ela própria lesse um por um até aprovar a qualidade e os "ensinamentos" que as histórias traziam em seu bojo.
Contos de fadas tradicionais, por exemplo, eu conheci fora de casa. Minha mãe nunca quis que eu me educasse para esperar ser salva por um príncipe encantado, nem que eu acreditasse que pessoas eram sempre boas ou sempre más, nem que eu tivesse a ilusão de que ser bela me resolveria todos os problemas.
Alguns livros que eu li quando pequena guardo até hoje por serem realmente de grande significado para mim.
"Pequenininha" é um deles. Conta a história de uma menina que passa um dia na casa da avó e descobre um quarto de coisas antigas. É narrado por uma pessoa adulta - provavelmente o pai da Maia - que fica matutando na sua vontade de guardar a menina no bolso. No final, ele acaba concluindo que se fizesse isso, ela nunca iria perdoá-o por ter deixar de viver tantas aventuras.
"Procurando firme" é a história de uma princesa muito geniosa, chamada Linda Flor, que não gostava dos príncipes que apareciam para salvá-la, que ficava com vontade de fazer os cursos que o irmão fazia para correr o mundo (ao invés dos que ela fazia para ser prendada) e um dia deu um susto em todo mundo quando decidiu colocar seus planos em prática. Saiu "procurando não sei o quê, mas procurando firme!"
Um outro que eu gosto bastante é do "Nicolau teve uma idéia", sobre um homem que ia falando com as pessoas e ia aumentando seu repertório de idéias. Gostava do conceito, mas pra dizer a verdade, nem me lembro muito bem de como terminava.
Esses livros me ensinaram que mais legal é ser pró-ativo, se lançar, ir descobrindo coisas e ir se descobrindo no caminho. Que é legal refletir e ter memórias. Que tendo as perguntas, algum dia a gente chega nas respostas.
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Música na televisão
Nos anos 80, a TV nos trouxe muitas coisas interessantes. Outras nem tanto, mas de não menor influência. E aqui vou me deter sobre as músicas que conheci por meio da telinha.
Começando pela parte de gosto discutível, os anos 80 foram repletos de Menudos e Dominós. Eu, como todas as meninas da época, tinha meu integrante preferido. Em geral eu não escolhia o preferido da maioria e me sentia muito autêntica por isso. E seguia repetindo roboticamente os sempre mesmos passos das dancinhas...
Uma vez meu pai flagrou eu e minhas primas ensaiando um show que apresentaríamos para os adultos. O ponto alto do espetáculo seria uma exibição inédita da coreografia da música "Não se reprima". Pra quem se lembra, tratava-se de uma sequência frenética de exercícios de bíceps/tríceps entremeados por giros bobos ao redor de si mesmo. Nada faria mais sentido. Pois bem, antes que pudéssemos apresentar a obra, meu pai mobilizou minha mãe e meus tios para ELES apresentarem um show para nós. Até hoje me lembro como era engraçado ver aqueles adultos nos imitando, exagerando movimentos, parecendo verdadeiros débeis mentais. Surtiu o efeito desejado! Eles se livraram de ter que falar que aquela porcaria que estávamos ensaiando era "linda!" e fomos obrigadas a exercitar o senso crítico a partir daí.
Também foi pela televisão que eu conheci, e gravei, um show da Madonna dos áureos tempos. Era um show em que ela cantava "Like a Virgin" com um vestido rodado azul claro, "La Isla Bonita" com uma roupa de espanhola vermelhíssima, uma outra música que esqueci com aquele espartilho creme de peitos em formato de cone. Esse show me despertou a paixão pelos figurinos.
Mas a coisa que eu mais gosto de lembrar (e rever) é uma série de shows televisionados que passavam após o horário da novela, em que Chico Buarque e Caetano Veloso traziam convidados para cantar com eles. Era tão bonito aquilo! Era tão rico de vozes e letras e temas e superações! Esses shows definiram meu gosto musical durante muito tempo. Ainda mais pela visível amizade que permeava aquelas pessoas e aquelas letras que muitas vezes eu custava a entender...
Nos anos 80, assim como é hoje e será sempre, as crianças têm acesso a infernos e maravilhas pela TV (hoje também pela internet). Faz parte da missão educá-las para ver e para fazer escolhas.
Escolhas bem feitas fazem um bem enorme para o coração.
Começando pela parte de gosto discutível, os anos 80 foram repletos de Menudos e Dominós. Eu, como todas as meninas da época, tinha meu integrante preferido. Em geral eu não escolhia o preferido da maioria e me sentia muito autêntica por isso. E seguia repetindo roboticamente os sempre mesmos passos das dancinhas...
Uma vez meu pai flagrou eu e minhas primas ensaiando um show que apresentaríamos para os adultos. O ponto alto do espetáculo seria uma exibição inédita da coreografia da música "Não se reprima". Pra quem se lembra, tratava-se de uma sequência frenética de exercícios de bíceps/tríceps entremeados por giros bobos ao redor de si mesmo. Nada faria mais sentido. Pois bem, antes que pudéssemos apresentar a obra, meu pai mobilizou minha mãe e meus tios para ELES apresentarem um show para nós. Até hoje me lembro como era engraçado ver aqueles adultos nos imitando, exagerando movimentos, parecendo verdadeiros débeis mentais. Surtiu o efeito desejado! Eles se livraram de ter que falar que aquela porcaria que estávamos ensaiando era "linda!" e fomos obrigadas a exercitar o senso crítico a partir daí.
Também foi pela televisão que eu conheci, e gravei, um show da Madonna dos áureos tempos. Era um show em que ela cantava "Like a Virgin" com um vestido rodado azul claro, "La Isla Bonita" com uma roupa de espanhola vermelhíssima, uma outra música que esqueci com aquele espartilho creme de peitos em formato de cone. Esse show me despertou a paixão pelos figurinos.
Mas a coisa que eu mais gosto de lembrar (e rever) é uma série de shows televisionados que passavam após o horário da novela, em que Chico Buarque e Caetano Veloso traziam convidados para cantar com eles. Era tão bonito aquilo! Era tão rico de vozes e letras e temas e superações! Esses shows definiram meu gosto musical durante muito tempo. Ainda mais pela visível amizade que permeava aquelas pessoas e aquelas letras que muitas vezes eu custava a entender...
Nos anos 80, assim como é hoje e será sempre, as crianças têm acesso a infernos e maravilhas pela TV (hoje também pela internet). Faz parte da missão educá-las para ver e para fazer escolhas.
Escolhas bem feitas fazem um bem enorme para o coração.
domingo, 30 de novembro de 2008
Cartas, notícias e negociações
Nos anos 80, a carta, escrita de próprio punho, era a forma escolhida para mandar notícias de menor urgência para parentes e amigos distantes. As notícias de urgência mediana iam por telefone, após as 20h00, quando a tarifa era mais barata. Se a notícia era urgente mesmo, ligava-se na hora.
Notícias de uma menina de 7 anos para primas de 9 e 11 anos em geral não eram consideradas urgentes. Falávamos sobre a escola, sobre os passeios que tínhamos feito, sobre as brincadeiras, sobre os doces que tínhamos comido.
Escrevíamos cartas e tínhamos coleções de papéis de carta. Passávamos muitas horas de nossas pequenas vidas admirando a beleza de cada um dos retângulos tamanho A5 impressos. E outras muitas horas alterando a ordem da pasta para uma exibição perfeita (talvez venha daí minha mania de editar albuns de fotografia...)
Quando me lembro da minha coleção, imediatamente me vem à cabeça três episódios: o do papel de carta mais feio do mundo, o do papel de carta do apontador de arco-íris e o do papel de carta do coelhinho.
O papel de carta mais feio do mundo foi um bloco que minha mãe uma vez trouxe para mim com 20 exemplares em que figurava uma menina comum, de cara um pouco quadrada, um tanto desarrumada pelo vento, em vermelho e sépia. Ela veio toda feliz, achando o papel de carta lindo. Naquele dia descobri que gosto não se discute.
O papel de carta do apontador de arco-íris era, este sim, um dos papéis de carta mais lindos do mundo. Que eu troquei com uma menina sem ter um repetido por causa de uma chantagem. Me arrependi amargamente, rodei o mundo atrás do mesmo papel de carta para comprar ou para trocar, sem sucesso. Naquele dia descobri que é preciso saber se defender das manipulações.
O papel de carta do coelhinho era muito interessante, diferente dos outros. Não era desenho, era como se fosse uma foto, mas num estilo de filme antigo. Esse eu ainda devo ter, se alguém quiser ver. Pois esse papel de carta foi um que a pessoa que trocou comigo se arrependeu e veio me pedir pra destrocar. Tive uma empatia enorme pelo problema da pessoa, mas não cedi. Naquele dia tive orgulho de mim pois soube defender meus interesses e não ser "boazinha" como eu sempre era, na expectativa de receber uma migalha de amizade em retorno.
E de tudo ficou um grande aprendizado: quanto mais a criança interage, dentro das dimensões de seu mundo, mais preparada ela estará para lidar com as interações, quando ela e os limites de seu mundo ficarem maiores.
Notícias de uma menina de 7 anos para primas de 9 e 11 anos em geral não eram consideradas urgentes. Falávamos sobre a escola, sobre os passeios que tínhamos feito, sobre as brincadeiras, sobre os doces que tínhamos comido.
Escrevíamos cartas e tínhamos coleções de papéis de carta. Passávamos muitas horas de nossas pequenas vidas admirando a beleza de cada um dos retângulos tamanho A5 impressos. E outras muitas horas alterando a ordem da pasta para uma exibição perfeita (talvez venha daí minha mania de editar albuns de fotografia...)
Quando me lembro da minha coleção, imediatamente me vem à cabeça três episódios: o do papel de carta mais feio do mundo, o do papel de carta do apontador de arco-íris e o do papel de carta do coelhinho.
O papel de carta mais feio do mundo foi um bloco que minha mãe uma vez trouxe para mim com 20 exemplares em que figurava uma menina comum, de cara um pouco quadrada, um tanto desarrumada pelo vento, em vermelho e sépia. Ela veio toda feliz, achando o papel de carta lindo. Naquele dia descobri que gosto não se discute.
O papel de carta do apontador de arco-íris era, este sim, um dos papéis de carta mais lindos do mundo. Que eu troquei com uma menina sem ter um repetido por causa de uma chantagem. Me arrependi amargamente, rodei o mundo atrás do mesmo papel de carta para comprar ou para trocar, sem sucesso. Naquele dia descobri que é preciso saber se defender das manipulações.
O papel de carta do coelhinho era muito interessante, diferente dos outros. Não era desenho, era como se fosse uma foto, mas num estilo de filme antigo. Esse eu ainda devo ter, se alguém quiser ver. Pois esse papel de carta foi um que a pessoa que trocou comigo se arrependeu e veio me pedir pra destrocar. Tive uma empatia enorme pelo problema da pessoa, mas não cedi. Naquele dia tive orgulho de mim pois soube defender meus interesses e não ser "boazinha" como eu sempre era, na expectativa de receber uma migalha de amizade em retorno.
E de tudo ficou um grande aprendizado: quanto mais a criança interage, dentro das dimensões de seu mundo, mais preparada ela estará para lidar com as interações, quando ela e os limites de seu mundo ficarem maiores.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Trajetos e destinos
Nos anos 80 ainda não havia acontecido a grande abertura promovida por Fernando Collor de Mello que, apesar de toda a bagunça que fez com a ajuda de Zélia Cardoso, Cabral e companhia (assunto para posts do próximo mês), tinha certa razão a respeito de nossos carros serem carroças.
Peguei uma lista de carros dos anos 80 num blog alheio para nos lembrarmos de quem povoava nossas ruas, naquela época: Fiat 147, Brasília, Corcel, Fusca, Belina, Chevette, Passat, Variant, Opala, Maverick, Landau, Galaxie, Caravan, Gol, Voyage, Parati, Saveiro, Santana, Quantum, Del Rey, Pampa, Escort, Spazio, Oggi, Panorama, Uno, Prêmio, Elba, Fiorino, Marajó, Monza, Chevy 500, Kadett, etc.
Lá pela minha garagem passaram: uma Panorama 1979, da qual eu gostava porque tinha nascido junto comigo; uma Belina de placa 1910, que eu gostava porque era o ano em que meu avô nasceu; um Fusca verde, que eu gostava porque era do meu outro avô e a gente achava bem engraçado que ele buzinava em todas as esquinas; um Gol que ficou pouco tempo, logo substituído por um Voyage num negócio memorável para toda a família, envolvendo uma linha telefônica que subiu demais de preço (!?!?!?) e nos deixou numa sinuca desgraçada; e, finalmente, um Prêmio que ficou pra mim quando aprendi a dirigir (chegando à minha mão, acreditem se quiser, com 180.000 quilômetros rodados).
Me concentrando na parte que se refere aos anos 80, carros fizeram parte da minha vida principalmente para me levarem à escola, em esquema de rodízio com os filhos de uma amiga da minha mãe. Sempre estudamos bem longe de casa. Minha mãe, como excelente professora que era, nos colocou em colégios ótimos, mais caros do que podíamos pagar e bem distantes de onde morávamos. E era durante essas viagens que tínhamos as maiores oportunidades de conversar com nossos pais - coisa que eles também sabiam e aproveitavam pra valer.
Na volta pra casa, meu pai nos ensinou a nos perdermos pela cidade. Isso mesmo. Lá pelas tantas ele perguntava pra criançada: "Vamos se perder?". A torcida ia ao delírio!!! Passávamos por lugares nunca antes navegados. Eu adorava, especialmente quando era sexta-feira, dia do meu Piano. Guardava sempre aquela esperança íntima de passássemos bastante tempo perdidos...
Fora isso, tinha aquela coisa que toda criança faz: ficar amigo do motorista do carro de trás, dar tchauzinho, fazer aquele "jóinha alternado com o número dois vária vezes", brincar de tiroteio e, invariavelmente, ficar triste quando o amigo vira à direita e seu carro continua em frente.
Carro é, até hoje, por esses e por outros motivos, um lugar onde eu gosto de estar. Isso independe de que carro seja. Independe de pra onde o carro vá (acontece muito de eu me sentir mais feliz nos trajetos do que nos destinos).
Estar num carro, especialmente com companhia, me dá uma agradável sensação de pertencer.
Peguei uma lista de carros dos anos 80 num blog alheio para nos lembrarmos de quem povoava nossas ruas, naquela época: Fiat 147, Brasília, Corcel, Fusca, Belina, Chevette, Passat, Variant, Opala, Maverick, Landau, Galaxie, Caravan, Gol, Voyage, Parati, Saveiro, Santana, Quantum, Del Rey, Pampa, Escort, Spazio, Oggi, Panorama, Uno, Prêmio, Elba, Fiorino, Marajó, Monza, Chevy 500, Kadett, etc.
Lá pela minha garagem passaram: uma Panorama 1979, da qual eu gostava porque tinha nascido junto comigo; uma Belina de placa 1910, que eu gostava porque era o ano em que meu avô nasceu; um Fusca verde, que eu gostava porque era do meu outro avô e a gente achava bem engraçado que ele buzinava em todas as esquinas; um Gol que ficou pouco tempo, logo substituído por um Voyage num negócio memorável para toda a família, envolvendo uma linha telefônica que subiu demais de preço (!?!?!?) e nos deixou numa sinuca desgraçada; e, finalmente, um Prêmio que ficou pra mim quando aprendi a dirigir (chegando à minha mão, acreditem se quiser, com 180.000 quilômetros rodados).
Me concentrando na parte que se refere aos anos 80, carros fizeram parte da minha vida principalmente para me levarem à escola, em esquema de rodízio com os filhos de uma amiga da minha mãe. Sempre estudamos bem longe de casa. Minha mãe, como excelente professora que era, nos colocou em colégios ótimos, mais caros do que podíamos pagar e bem distantes de onde morávamos. E era durante essas viagens que tínhamos as maiores oportunidades de conversar com nossos pais - coisa que eles também sabiam e aproveitavam pra valer.
Na volta pra casa, meu pai nos ensinou a nos perdermos pela cidade. Isso mesmo. Lá pelas tantas ele perguntava pra criançada: "Vamos se perder?". A torcida ia ao delírio!!! Passávamos por lugares nunca antes navegados. Eu adorava, especialmente quando era sexta-feira, dia do meu Piano. Guardava sempre aquela esperança íntima de passássemos bastante tempo perdidos...
Fora isso, tinha aquela coisa que toda criança faz: ficar amigo do motorista do carro de trás, dar tchauzinho, fazer aquele "jóinha alternado com o número dois vária vezes", brincar de tiroteio e, invariavelmente, ficar triste quando o amigo vira à direita e seu carro continua em frente.
Carro é, até hoje, por esses e por outros motivos, um lugar onde eu gosto de estar. Isso independe de que carro seja. Independe de pra onde o carro vá (acontece muito de eu me sentir mais feliz nos trajetos do que nos destinos).
Estar num carro, especialmente com companhia, me dá uma agradável sensação de pertencer.
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Sobreviventes
Nos anos 80, como em todas as décadas desde que o mundo é mundo, crianças não foram programadas para sobreviver. E nós não fomos diferentes.
Me lembro do dia em que meu irmão, ainda bebê, caiu de seu carrinho com a cara em cima de um cano desencapado. Foi assim que ele conquistou uma bonita cicatriz em formato de anzol que o acompanha até hoje.
É viva também a memória do sangue correndo da minha cabeça e manchando minha blusa favorita (uma miniblusa azul, da Minnie) na ocasião uma série de fatos imprevisíveis me renderam alguns pontos no alto da cabeça. Quem poderia imaginar que rolar de costas por sobre um grande tambor solto perto de um tanque de areia - este deliminado por pequenos muros de cimento - poderia resultar em qualquer tipo de acidente?
Um acidente potencial que nunca ocorreu - apesar das frequentes chances que demos - foi cairmos de uma escada que existe na casa da minha mãe direto na outra parte da escada - de uma altura que vaia de 1 a 4 metros. Era a coisa mais gostosa do mundo abraçar o murinho que servia como corrimão e ir deslizando lá de cima sem colocar os pés nos degrais!
À medida que vamos crescendo, ficamos mais previdentes, nos afastamos das situações que podem nos machucar. Talvez por irmos aos poucos construindo um repertório maior de experiências de dor (creio que isso vale também para outras dores menos tangíveis que conhecemos mais tarde na vida).
Quanto mais nos protegemos - o que equivale de uma certa forma a cultivarmos o medo - mais distantes ficamos também da deliciosa sensação de alegria que os momentos anteriores Em às possíveis fatalidades nos trazem.
Nos machucamos menos, mas nos fazemos menos felizes também. Trade offs. Faz parte do processo de deixarmos de ser crianças. Reflexo, talvez, de acreditarmos que temos mais o que perder depois de adultos.
Ou não?
Me lembro do dia em que meu irmão, ainda bebê, caiu de seu carrinho com a cara em cima de um cano desencapado. Foi assim que ele conquistou uma bonita cicatriz em formato de anzol que o acompanha até hoje.
É viva também a memória do sangue correndo da minha cabeça e manchando minha blusa favorita (uma miniblusa azul, da Minnie) na ocasião uma série de fatos imprevisíveis me renderam alguns pontos no alto da cabeça. Quem poderia imaginar que rolar de costas por sobre um grande tambor solto perto de um tanque de areia - este deliminado por pequenos muros de cimento - poderia resultar em qualquer tipo de acidente?
Um acidente potencial que nunca ocorreu - apesar das frequentes chances que demos - foi cairmos de uma escada que existe na casa da minha mãe direto na outra parte da escada - de uma altura que vaia de 1 a 4 metros. Era a coisa mais gostosa do mundo abraçar o murinho que servia como corrimão e ir deslizando lá de cima sem colocar os pés nos degrais!
À medida que vamos crescendo, ficamos mais previdentes, nos afastamos das situações que podem nos machucar. Talvez por irmos aos poucos construindo um repertório maior de experiências de dor (creio que isso vale também para outras dores menos tangíveis que conhecemos mais tarde na vida).
Quanto mais nos protegemos - o que equivale de uma certa forma a cultivarmos o medo - mais distantes ficamos também da deliciosa sensação de alegria que os momentos anteriores Em às possíveis fatalidades nos trazem.
Nos machucamos menos, mas nos fazemos menos felizes também. Trade offs. Faz parte do processo de deixarmos de ser crianças. Reflexo, talvez, de acreditarmos que temos mais o que perder depois de adultos.
Ou não?
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quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Transações
Enquanto, nos anos 80, Ronald Reagan e Margareth Tatcher traçavam a política neoliberal, eu e minha família empreendíamos como podíamos.
Meu pai inventou um aparelho, apelidado carinhosamente de canetinha, que, em contato com a pele, acendia um led vermelho ao encontrar uma terminação nervosa. Chegou a vender o aparelho para alguns médicos, recebeu encomendas de acupunturistas, foi legal. Eu ajudava a fazer soldas, acompanhava a produção das plaquinhas eletrônicas e os trabalhos de construção e utilização dos moldes em durepox.
Eu, do meu lado, também ensaiava minhas micro empresas. Uma vez inventei um "perfume de rosas". Amassetei um punhado de pétalas brancas caídas da roseira da minha avó, misturei com álcool e montei uma barraquinha no portão. Não vendi nenhuma gota da poção afrodisíaca, obviamente.
Algum tempo depois, me encantei por um envelope da minha coleção de papeis de carta. Ele tinha um corte interessante, barroco como vim a saber depois. Meu pai anunciou que me mostraria uma coisa foi abrindo o envelope completamente, cuidadosamente, inclusive naquelas partes coladas. Eu fiquei brava por ele estar estragando tamanha preciosidade, ao que ele respondeu com o tradicional "péra, péra, péra". Então ele me mostrou que, a partir daquele envelope, era possível fazer um molde para construir outros semelhantes. Fiz esse e outros, montei envelopes de várias cores, e consegui vender cerca de meia dúzia (não cobriu meu investimento inicial, mas foi bom).
Essas primeiras experiências (depois vieram outras, inclusive com CNPJ) são de alguma forma emblemáticas do que, até o momento, vem a ser meu relacionamento com os negócios. Muito envolvimento, carinho, coragem, diversão. Tino comercial que é bom...
Quem sabe um dia?
Meu pai inventou um aparelho, apelidado carinhosamente de canetinha, que, em contato com a pele, acendia um led vermelho ao encontrar uma terminação nervosa. Chegou a vender o aparelho para alguns médicos, recebeu encomendas de acupunturistas, foi legal. Eu ajudava a fazer soldas, acompanhava a produção das plaquinhas eletrônicas e os trabalhos de construção e utilização dos moldes em durepox.
Eu, do meu lado, também ensaiava minhas micro empresas. Uma vez inventei um "perfume de rosas". Amassetei um punhado de pétalas brancas caídas da roseira da minha avó, misturei com álcool e montei uma barraquinha no portão. Não vendi nenhuma gota da poção afrodisíaca, obviamente.
Algum tempo depois, me encantei por um envelope da minha coleção de papeis de carta. Ele tinha um corte interessante, barroco como vim a saber depois. Meu pai anunciou que me mostraria uma coisa foi abrindo o envelope completamente, cuidadosamente, inclusive naquelas partes coladas. Eu fiquei brava por ele estar estragando tamanha preciosidade, ao que ele respondeu com o tradicional "péra, péra, péra". Então ele me mostrou que, a partir daquele envelope, era possível fazer um molde para construir outros semelhantes. Fiz esse e outros, montei envelopes de várias cores, e consegui vender cerca de meia dúzia (não cobriu meu investimento inicial, mas foi bom).
Essas primeiras experiências (depois vieram outras, inclusive com CNPJ) são de alguma forma emblemáticas do que, até o momento, vem a ser meu relacionamento com os negócios. Muito envolvimento, carinho, coragem, diversão. Tino comercial que é bom...
Quem sabe um dia?
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terça-feira, 25 de novembro de 2008
Minha única medalha
Devem ter acontecido muitas coisas no mundo do esporte na década de 80. É claro, eu não sei precisar com certeza.
O Senna deve ter ganho muitos Grandes Prêmios. A Hortência do basquete provavelmente era uma celebridade na época. Talvez o Oscar também. Acho que o Vôlei ainda não era forte. Ou era?
Enquanto essas coisas aconteciam ou não aconteciam, eu... era sempre das últimas a serem escolhidas para os times na aula de educação física. Estamos falando daquela idade em que ser a mais alta corresponde necessariamente ser a mais estabanada. Na minha mão, a bola sempre tinha vida própria.
Só lembro de um lugar onde eu era feliz jogando bola: a Rua Bonfim, em Ribeirão Preto. Lá eu era líder de time na queimada. Para fugir da bola, eu era ótima! Parecia possuída!!! Me lembro de uma vez que saltei e abri um espacate no ar para deixar a bola passar. Foi a sensação do verão!
Em São Paulo, eu sempre ganhei medalhas que não me pertenciam (a não ser pelo pensamento positivo que eu possa, eventualmente, ter feito de lá do banco de reservas). Mas houve uma conquista na 3ª série que eu nunca vou esquecer. Foi assim:
Não havia mais ninguém, mais ninguém mesmo, que não tivesse sido escalado para outras modalidades. A regra era que todo mundo precisaria participar de, pelo menos, uma prova no campeonato. Pois bem, tive que ser a representante da classe na corrida de resistência.
Apesar de ninguém acreditar sinceramente de que daquela cartola sairia algum coelho, senti o peso da responsabilidade. Minha classe dependia de mim, numa prova individual.
Nesse dia, as torcidas ficaram dentro da quadra, enquanto nós corríamos do lado de fora do gradil. Ainda me lembro das pessoas me provocando, se reposicionando para nos ver melhor, se jogando contra a grade pra gritar qualquer coisa.
Eu larguei em último lugar e fui assim por um bom tempo. Foi bem chato quando eu, lá pelas tantas, quase morrendo, assisti a menina que estava em primeiro lugar me ultrapassar. Juliana, era o nome dela. Na minha memória, ela tinha um certo "quê" de Mick Jagger.
É claro que eu estava a um milímetro de desistir. Foi nessa hora que eu recinheci uma voz amiga que passou o restante da prova me acompanhando e me dizendo de dentro da grade: "mantenha o ritmo", "vai em frente", "respira", "a Juliana não vai aguentar por muito tempo".
E eis que, uma ou duas voltas depois, retomei com dignidade minha posição de último lugar. E logo mais, numa ultrapassagem que arrancou os gritos da torcida, fiquei à frente daquela que tinha estado em primeiro lugar durante boa parte da prova! E assim cruzei a linha de chegada.
Não conseguia acreditar! Minha turma comemorando de verdade meu segundo lugar!
Não me lembro qual foi a importância dessa pontuação para o compto geral do campeonato. Mas, para mim, isso siginificou receber a única medalha da qual eu realmente fiquei orgulhosa na vida.
Se bobear, até hoje, em momentos difíceis, quando estou prestes a desistir, ouço essa voz, no meio da gritaria, dizendo: "mantenha o ritmo", "vai em frente", "respira", "isso não vai adiante por muito tempo"...
O Senna deve ter ganho muitos Grandes Prêmios. A Hortência do basquete provavelmente era uma celebridade na época. Talvez o Oscar também. Acho que o Vôlei ainda não era forte. Ou era?
Enquanto essas coisas aconteciam ou não aconteciam, eu... era sempre das últimas a serem escolhidas para os times na aula de educação física. Estamos falando daquela idade em que ser a mais alta corresponde necessariamente ser a mais estabanada. Na minha mão, a bola sempre tinha vida própria.
Só lembro de um lugar onde eu era feliz jogando bola: a Rua Bonfim, em Ribeirão Preto. Lá eu era líder de time na queimada. Para fugir da bola, eu era ótima! Parecia possuída!!! Me lembro de uma vez que saltei e abri um espacate no ar para deixar a bola passar. Foi a sensação do verão!
Em São Paulo, eu sempre ganhei medalhas que não me pertenciam (a não ser pelo pensamento positivo que eu possa, eventualmente, ter feito de lá do banco de reservas). Mas houve uma conquista na 3ª série que eu nunca vou esquecer. Foi assim:
Não havia mais ninguém, mais ninguém mesmo, que não tivesse sido escalado para outras modalidades. A regra era que todo mundo precisaria participar de, pelo menos, uma prova no campeonato. Pois bem, tive que ser a representante da classe na corrida de resistência.
Apesar de ninguém acreditar sinceramente de que daquela cartola sairia algum coelho, senti o peso da responsabilidade. Minha classe dependia de mim, numa prova individual.
Nesse dia, as torcidas ficaram dentro da quadra, enquanto nós corríamos do lado de fora do gradil. Ainda me lembro das pessoas me provocando, se reposicionando para nos ver melhor, se jogando contra a grade pra gritar qualquer coisa.
Eu larguei em último lugar e fui assim por um bom tempo. Foi bem chato quando eu, lá pelas tantas, quase morrendo, assisti a menina que estava em primeiro lugar me ultrapassar. Juliana, era o nome dela. Na minha memória, ela tinha um certo "quê" de Mick Jagger.
É claro que eu estava a um milímetro de desistir. Foi nessa hora que eu recinheci uma voz amiga que passou o restante da prova me acompanhando e me dizendo de dentro da grade: "mantenha o ritmo", "vai em frente", "respira", "a Juliana não vai aguentar por muito tempo".
E eis que, uma ou duas voltas depois, retomei com dignidade minha posição de último lugar. E logo mais, numa ultrapassagem que arrancou os gritos da torcida, fiquei à frente daquela que tinha estado em primeiro lugar durante boa parte da prova! E assim cruzei a linha de chegada.
Não conseguia acreditar! Minha turma comemorando de verdade meu segundo lugar!
Não me lembro qual foi a importância dessa pontuação para o compto geral do campeonato. Mas, para mim, isso siginificou receber a única medalha da qual eu realmente fiquei orgulhosa na vida.
Se bobear, até hoje, em momentos difíceis, quando estou prestes a desistir, ouço essa voz, no meio da gritaria, dizendo: "mantenha o ritmo", "vai em frente", "respira", "isso não vai adiante por muito tempo"...
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
15 minutos de fama
Nos anos 80, eu e meu irmão estudávamos piano.
Meu irmão, mais disciplinado, mais concentrado e tão competitivo quanto eu, fazia muito mais bonito nas audições particulares pro meu avô, patrocinador da iniciativa. todos os dias pela manhã. Eu, mais avoada e invariavelmente sem vontade de treinar, quase sempre era um desastre.
Mas havia um livro de partituras que nos fazia declarar trégua na disputa pelo reconhecimento alheio: o "Piano a quatro mãos". A divisão de tarefas era adequada: eu fazia o acompanhamento (basicamente a repetição dos acordes, dentro de um determinado ritmo) e ele se encarregava das melodias, que eram mais complicadas.
Nos anos 80 existiam poucos Shoppings em São Paulo, e nós praticamente só íamos ao Eldorado. Tomávamos lanche no Texas Burger e saíamos com um chapéu de cowboy fantástico, feito de plástico amarelo. Minha mãe sempre procurava alguma coisa pra comprar na extinta loja de departamentos "Eldorado Plaza" e reclamava dos preços, enquanto eu e meu irmão brincávamos de esconde-esconde no meio das araras.
Um belo dia, estávamos descendo as escadas rolantes e vimos um homem tocando piano na frente do Gig's. Rodeamos um pouco, nos apoiamos na lateral do instrumento, esperamos o cara terminar a música e logo perguntamos se poderíamos ocupar o lugar dele.
Fomos a sensação do shopping durante a duração do Carnaval de Veneza e d'O Bife. As pessoas que desciam as escadas rolantes se aglomeravam para nos assistir. Paramos logo porque, obviamente, meu repertório decorado se resumia a essas duas músicas.
Depois dessa época também aprendi órgão e violão, mais ou menos da mesma forma: apenas o suficiente para agradar ouvidos pouco exigentes. Cantava nos churrascos de casa, para uma platéia cativa (e cativada por princípio). Volta e meia fico com vontade de cantar numa banda, desde que ela não tenha grandes aspirações.
Só porque é charmoso ser band leader. Só porque é gostoso ser aplaudida, de vez em quando.
Meu irmão, mais disciplinado, mais concentrado e tão competitivo quanto eu, fazia muito mais bonito nas audições particulares pro meu avô, patrocinador da iniciativa. todos os dias pela manhã. Eu, mais avoada e invariavelmente sem vontade de treinar, quase sempre era um desastre.
Mas havia um livro de partituras que nos fazia declarar trégua na disputa pelo reconhecimento alheio: o "Piano a quatro mãos". A divisão de tarefas era adequada: eu fazia o acompanhamento (basicamente a repetição dos acordes, dentro de um determinado ritmo) e ele se encarregava das melodias, que eram mais complicadas.
Nos anos 80 existiam poucos Shoppings em São Paulo, e nós praticamente só íamos ao Eldorado. Tomávamos lanche no Texas Burger e saíamos com um chapéu de cowboy fantástico, feito de plástico amarelo. Minha mãe sempre procurava alguma coisa pra comprar na extinta loja de departamentos "Eldorado Plaza" e reclamava dos preços, enquanto eu e meu irmão brincávamos de esconde-esconde no meio das araras.
Um belo dia, estávamos descendo as escadas rolantes e vimos um homem tocando piano na frente do Gig's. Rodeamos um pouco, nos apoiamos na lateral do instrumento, esperamos o cara terminar a música e logo perguntamos se poderíamos ocupar o lugar dele.
Fomos a sensação do shopping durante a duração do Carnaval de Veneza e d'O Bife. As pessoas que desciam as escadas rolantes se aglomeravam para nos assistir. Paramos logo porque, obviamente, meu repertório decorado se resumia a essas duas músicas.
Depois dessa época também aprendi órgão e violão, mais ou menos da mesma forma: apenas o suficiente para agradar ouvidos pouco exigentes. Cantava nos churrascos de casa, para uma platéia cativa (e cativada por princípio). Volta e meia fico com vontade de cantar numa banda, desde que ela não tenha grandes aspirações.
Só porque é charmoso ser band leader. Só porque é gostoso ser aplaudida, de vez em quando.
domingo, 23 de novembro de 2008
Primeiro amor
Nos anos 80 eu tive um amor de infância.
Daqueles que ele gosta de você quando você não gosta dele e no momento seguinte invertem-se os papéis. O nome dele era Rodrigo Mateus de Souza Campos, meu melhor amigo.
A "revelação" aconteceu num dia na 2ª série em que a professora perguntou se ele casaria com ela, quando crescesse. O Rodrigo tinha um tipo físico assim, de um futuro Raí, sabe? A professora não era boba nem nada. Mas a resposta do garoto foi não, porque "gostava de outra pessoa". Todos ficaram muito curiosos e atentos a partir daí. Até todo mundo perceber que não tinha pra ninguém. Era de mim mesmo que ele gostava.
Eu imaginava, toda vez que escutava "Quase sem querer", do Legião Urbana (e não era pouco), que era ele quem cantava a música pra mim. Durante o acantonamento, conheci a "Olhar 43", do RPM, e foi nele que pensei enquanto entendia só metade da letra.
Conversar com o Rodrigo foi importante quando meu pai viajou para o Japão. O pai dele também tinha ficado um tempinho no exterior e ele me garantiu que, apesar da saudade, o tempo passava rápido.
Também tenho certeza que ele votou em mim naquela pesquisa feita pelos jornaizinhos da 4ª série, na seção "a menina mais legal na opinião dos meninos". Ganhei com boa margem aquela pesquisa. Pena que, por algum motivo que hoje eu não consigo precisar, não achava viável passar o recreio com os meninos (isso teria me poupado um pouco do sofrimento relatado anteriormente).
Respirei aliviada quando, na festa mais legal de todos os tempos (à qual eu não fui), aconteceram muitos primeiros beijos, mas nenhum com ele.
A história, como qualquer história de amor infantil que se preze, não teve muitos desdobramentos.
Depois que a escola fechou, ele foi para o Ítaca, eu para o Galileu. Ainda o vi saindo pelo portão uma vez, quando passava de carro, voltando pra casa.
Encontrei o Rodrigo depois de muito tempo, quando fui prestar vestibular na ESPM (eu publicidade, ele administração). Nada parecido com o Raí. Depois soube que ele foi pra Ribeirão Preto. Isso é tudo.
Algumas pessoas nunca vão saber a importância que tiveram na curta vida de outras.
A não ser que, inadvertidamente, um dia digitem seu próprio nome no Google e caiam no blog de alguém que fez uma retrospectiva dos anos 80, quase vinte anos depois.
Daqueles que ele gosta de você quando você não gosta dele e no momento seguinte invertem-se os papéis. O nome dele era Rodrigo Mateus de Souza Campos, meu melhor amigo.
A "revelação" aconteceu num dia na 2ª série em que a professora perguntou se ele casaria com ela, quando crescesse. O Rodrigo tinha um tipo físico assim, de um futuro Raí, sabe? A professora não era boba nem nada. Mas a resposta do garoto foi não, porque "gostava de outra pessoa". Todos ficaram muito curiosos e atentos a partir daí. Até todo mundo perceber que não tinha pra ninguém. Era de mim mesmo que ele gostava.
Eu imaginava, toda vez que escutava "Quase sem querer", do Legião Urbana (e não era pouco), que era ele quem cantava a música pra mim. Durante o acantonamento, conheci a "Olhar 43", do RPM, e foi nele que pensei enquanto entendia só metade da letra.
Conversar com o Rodrigo foi importante quando meu pai viajou para o Japão. O pai dele também tinha ficado um tempinho no exterior e ele me garantiu que, apesar da saudade, o tempo passava rápido.
Também tenho certeza que ele votou em mim naquela pesquisa feita pelos jornaizinhos da 4ª série, na seção "a menina mais legal na opinião dos meninos". Ganhei com boa margem aquela pesquisa. Pena que, por algum motivo que hoje eu não consigo precisar, não achava viável passar o recreio com os meninos (isso teria me poupado um pouco do sofrimento relatado anteriormente).
Respirei aliviada quando, na festa mais legal de todos os tempos (à qual eu não fui), aconteceram muitos primeiros beijos, mas nenhum com ele.
A história, como qualquer história de amor infantil que se preze, não teve muitos desdobramentos.
Depois que a escola fechou, ele foi para o Ítaca, eu para o Galileu. Ainda o vi saindo pelo portão uma vez, quando passava de carro, voltando pra casa.
Encontrei o Rodrigo depois de muito tempo, quando fui prestar vestibular na ESPM (eu publicidade, ele administração). Nada parecido com o Raí. Depois soube que ele foi pra Ribeirão Preto. Isso é tudo.
Algumas pessoas nunca vão saber a importância que tiveram na curta vida de outras.
A não ser que, inadvertidamente, um dia digitem seu próprio nome no Google e caiam no blog de alguém que fez uma retrospectiva dos anos 80, quase vinte anos depois.
sábado, 22 de novembro de 2008
Moda e música
Os anos 80 foram anos muito divertidos.
Década das músicas mais saltitantes, das maiores irreverências, das roupas mais ridículas. Anos em que realmente não merecíamos ser levados a sério.
Usei minisaia por cima de calça, jeans semibaggy, macacão cintura alta, camisa branca com ombreira, brinco de plástico de pressão em formato de triangulo, brilhos, fosforecências... Recentemente aproveitei uns Skol Beats para fazer um revival de parte dessa liberdade anti-estética!
Ganhei uma boneca da Porcina, uma moça que trabalhou lá em casa, que era a cara dos anos 80. Roupa de ir para a balada: cabelo de lã espetado pra todos os lados, roupinha listada de prateado com preto - por cima de uma calça de ginástica - e faixa na cabeça. Fiquei bem triste quando meu pai mandou a Porcina embora porque ela saia à noite e no outro dia não conseguia acordar. Nada mais anos 80.
Naqueles anos gente da minha idade ia pros bailinhos (ou brincadeiras dançantes, para quem morava no interior). Tempo de grandes emoções, taquicardias, palpitações, quando alguém te tirava para dançar uma música lenta (muuuuuuuuuuuuito raro!). Pegar na mão era prova de amor eterno.
No playlist não podia faltar "Dancing with myself", "Karma Chameleon", "Take me to the Church on time", "You spin me round (like a record)", "Just can´t get enough", no melhor estilo "estou no mundo a passeio".
Que a irreverência dos anos 80 nos acompanhe a todos...
Década das músicas mais saltitantes, das maiores irreverências, das roupas mais ridículas. Anos em que realmente não merecíamos ser levados a sério.
Usei minisaia por cima de calça, jeans semibaggy, macacão cintura alta, camisa branca com ombreira, brinco de plástico de pressão em formato de triangulo, brilhos, fosforecências... Recentemente aproveitei uns Skol Beats para fazer um revival de parte dessa liberdade anti-estética!
Ganhei uma boneca da Porcina, uma moça que trabalhou lá em casa, que era a cara dos anos 80. Roupa de ir para a balada: cabelo de lã espetado pra todos os lados, roupinha listada de prateado com preto - por cima de uma calça de ginástica - e faixa na cabeça. Fiquei bem triste quando meu pai mandou a Porcina embora porque ela saia à noite e no outro dia não conseguia acordar. Nada mais anos 80.
Naqueles anos gente da minha idade ia pros bailinhos (ou brincadeiras dançantes, para quem morava no interior). Tempo de grandes emoções, taquicardias, palpitações, quando alguém te tirava para dançar uma música lenta (muuuuuuuuuuuuito raro!). Pegar na mão era prova de amor eterno.
No playlist não podia faltar "Dancing with myself", "Karma Chameleon", "Take me to the Church on time", "You spin me round (like a record)", "Just can´t get enough", no melhor estilo "estou no mundo a passeio".
Que a irreverência dos anos 80 nos acompanhe a todos...
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Amizades
Nos anos 80, o Colégio Gávea existia.
O Gávea é uma escola que guardo com muito carinho dentro do meu coração. Reencontrei sua antiga dona numa viagem recente a Petrópolis e entendi melhor porque a escola era do jeito que era: crianças passando o recreio na sala da diretora (explorando jogos e outras coisas interessantes), aula de ouvir histórias e de cantas música dos titãs (dentro da própria grade curricular), meu poeminha sobre a Amazônia virando ficha de estudos de todos os alunos da 4ª série... Como escola, era um sonho (algo que um dia eu quero proporcionar pros meus filhos). Mas também foi palco de muitos momentos difíceis na minha vida.
Por um azar incrível, as duas pessoas que eu costumava chamar de amigas no início da minha vida eram tudo, menos amigas. Hoje sei que existe nome para o que eu vivia: bullying. Não recomendo.
Minha reação ao ser colocada continuamente "de gelo" (situação em que a regra é as pessoas agirem como se você não existisse), orientada pela voz experiente da minha mãe, foi aprender a não ligar, a viver sem precisar de amigos, a me bastar.
Sinto que, mesmo depois de passada a fase brava, nunca mais consegui incluir realmente as amizades na minha vida. Elas existem, eu adoro de paixão meus amigos, mas eles ocupam um lugar marginal na minha rotina. Isso é uma coisa que eu acho, de certa forma, triste (mas só quando paro pra pensar. Do contrário, nem percebo que isso acontece).
Aos dez anos, quando eu estava na 4ª série, quase que tudo passou a ser diferente. Por pouco. Eu me espantei de mudar de classe e tanta gente passar a me achar uma pessoa legal. Fui incluída, convidada, considerada, enturmada. Até hoje acho que aquele foi o ano mais feliz da minha vida (até pelo contraste com os anteriores).
Foi nesse ano que a escola fechou e, com ela, fechou-se também minha janela de oportunidade. As pessoas se espalharam por muitos colégios e eu, bem, não senti imediatamente o quanto tinha me ressentido.
Creio que foi desse momento como em diante que eu eu coloquei definitivamente minhas metas (meus escudos) acima dos meus sentimentos. A partir daí fiz muitas escolhas sem me dar ouvidos de fato. O que me levou pra longe de mim mesma muitas (e importantes) vezes.
Hoje me tenho mais perto. Porém com as idiossincrasias que carrego dessas andanças. Com muitas coisas ainda por equilibrar.
O Gávea é uma escola que guardo com muito carinho dentro do meu coração. Reencontrei sua antiga dona numa viagem recente a Petrópolis e entendi melhor porque a escola era do jeito que era: crianças passando o recreio na sala da diretora (explorando jogos e outras coisas interessantes), aula de ouvir histórias e de cantas música dos titãs (dentro da própria grade curricular), meu poeminha sobre a Amazônia virando ficha de estudos de todos os alunos da 4ª série... Como escola, era um sonho (algo que um dia eu quero proporcionar pros meus filhos). Mas também foi palco de muitos momentos difíceis na minha vida.
Por um azar incrível, as duas pessoas que eu costumava chamar de amigas no início da minha vida eram tudo, menos amigas. Hoje sei que existe nome para o que eu vivia: bullying. Não recomendo.
Minha reação ao ser colocada continuamente "de gelo" (situação em que a regra é as pessoas agirem como se você não existisse), orientada pela voz experiente da minha mãe, foi aprender a não ligar, a viver sem precisar de amigos, a me bastar.
Sinto que, mesmo depois de passada a fase brava, nunca mais consegui incluir realmente as amizades na minha vida. Elas existem, eu adoro de paixão meus amigos, mas eles ocupam um lugar marginal na minha rotina. Isso é uma coisa que eu acho, de certa forma, triste (mas só quando paro pra pensar. Do contrário, nem percebo que isso acontece).
Aos dez anos, quando eu estava na 4ª série, quase que tudo passou a ser diferente. Por pouco. Eu me espantei de mudar de classe e tanta gente passar a me achar uma pessoa legal. Fui incluída, convidada, considerada, enturmada. Até hoje acho que aquele foi o ano mais feliz da minha vida (até pelo contraste com os anteriores).
Foi nesse ano que a escola fechou e, com ela, fechou-se também minha janela de oportunidade. As pessoas se espalharam por muitos colégios e eu, bem, não senti imediatamente o quanto tinha me ressentido.
Creio que foi desse momento como em diante que eu eu coloquei definitivamente minhas metas (meus escudos) acima dos meus sentimentos. A partir daí fiz muitas escolhas sem me dar ouvidos de fato. O que me levou pra longe de mim mesma muitas (e importantes) vezes.
Hoje me tenho mais perto. Porém com as idiossincrasias que carrego dessas andanças. Com muitas coisas ainda por equilibrar.
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quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Construção
Minha casa foi construída com recursos do BNH (Banco Nacional da Habitação).
Antes, no terreno de 250m², comprado com a ajuda do meu avô, existia uma casa de pau a pique minúscula, cheia de buracos nas paredes.
Brinquei com meu irmão durante as várias fases de construção da casa: equilibrista na fase das fundações, Indiana Jones na fase do tijolo à vista, esconde-esconde na fase de acabamento.
O primeiro aniversário comemorado na nova casa foi o meu, aos 4 anos, ainda pisando no contrapiso. Alguns meses depois veio o inverno e, com ele, os carpetes.
Nosso quintal já sofreu muitas transformações. Houve um tempo em que tínhamos uma verdadeira fazenda em miniatura no fundo de casa: abacateiro, goiabeira, pessegueiro, pé de mixirica, limoeiro, milho, fruta do conde, canteiros com cenoura, alface, beterrada, além das ervas - salsinha, cebolinha, hortelã, alecrim, arruda, manjerição, novalgina, alfazema... - e das criação de galinhas, codornas e patos. Tínhamos também um cachorro, duas tartarugas, dois periquitos e três ramsters. Foi nessa época que a escolhinha do meu irmão promoveu uma excursão dos alunos do jardim II para a minha casa.
Também tivemos um parquinho com balaço, escorregador, gangorra e caixa de areia no fundo do quintal. Na parte cimentada, eu e meu irmão desenhávamos ruas e cruzamentos para andar de bicicleta em alta velocidade. Jogávamos vôlei, futebol, basquete...
Estou lembrando agora de mais uma invenção do meu pai: uma forma de prender o cachorro de forma que pudesse correr de um lado para o outro. A corrente do cachorro não era presa num ponto fixo. Ela corria ao longo de um fio de arame bem grosso fixado no chão, rente ao muro, de fora a fora. Era gostoso ouvir aquele barulho e saber que o Sansão estava por ali...
Durante a década de 80, no período de crise mais grave, muita gente não conseguiu pagar as prestações do financiamento e quase perdeu a casa. A gente estava nessa lista.
Graças a um erro do governo da época na proposição de um acordo, aliado à agilidade dos meus pais e à valiosa orientação de uma amiga da família que trabalhava na Caixa Econômica Federal, conseguimos dar entrada na papelada no único dia em que a possibilidade desse acordo vigorou. Voltamos a pagar as prestações e, alguns anos depois, quitamos a dívida.
Minha avó - que mora hoje numa casa construída no fundo do quintal que abriga tantas memórias (aproveito para desafiar meus leitores a adivinharem quem projetou essa casa tão bem resolvida em termos de aproveitamento de espaço, iluminação e ventilação) - afirma que foi um ritual de despedida para os antigos moradores daquele terreno, envolvendo xaxim e queimas, que abriu os caminhos para a consolidação dessa conquista.
Quem sou eu pra duvidar? Agradeço profundamente, a todos os viventes e não viventes, pela graça alcançada.
Antes, no terreno de 250m², comprado com a ajuda do meu avô, existia uma casa de pau a pique minúscula, cheia de buracos nas paredes.
Brinquei com meu irmão durante as várias fases de construção da casa: equilibrista na fase das fundações, Indiana Jones na fase do tijolo à vista, esconde-esconde na fase de acabamento.
O primeiro aniversário comemorado na nova casa foi o meu, aos 4 anos, ainda pisando no contrapiso. Alguns meses depois veio o inverno e, com ele, os carpetes.
Nosso quintal já sofreu muitas transformações. Houve um tempo em que tínhamos uma verdadeira fazenda em miniatura no fundo de casa: abacateiro, goiabeira, pessegueiro, pé de mixirica, limoeiro, milho, fruta do conde, canteiros com cenoura, alface, beterrada, além das ervas - salsinha, cebolinha, hortelã, alecrim, arruda, manjerição, novalgina, alfazema... - e das criação de galinhas, codornas e patos. Tínhamos também um cachorro, duas tartarugas, dois periquitos e três ramsters. Foi nessa época que a escolhinha do meu irmão promoveu uma excursão dos alunos do jardim II para a minha casa.
Também tivemos um parquinho com balaço, escorregador, gangorra e caixa de areia no fundo do quintal. Na parte cimentada, eu e meu irmão desenhávamos ruas e cruzamentos para andar de bicicleta em alta velocidade. Jogávamos vôlei, futebol, basquete...
Estou lembrando agora de mais uma invenção do meu pai: uma forma de prender o cachorro de forma que pudesse correr de um lado para o outro. A corrente do cachorro não era presa num ponto fixo. Ela corria ao longo de um fio de arame bem grosso fixado no chão, rente ao muro, de fora a fora. Era gostoso ouvir aquele barulho e saber que o Sansão estava por ali...
Durante a década de 80, no período de crise mais grave, muita gente não conseguiu pagar as prestações do financiamento e quase perdeu a casa. A gente estava nessa lista.
Graças a um erro do governo da época na proposição de um acordo, aliado à agilidade dos meus pais e à valiosa orientação de uma amiga da família que trabalhava na Caixa Econômica Federal, conseguimos dar entrada na papelada no único dia em que a possibilidade desse acordo vigorou. Voltamos a pagar as prestações e, alguns anos depois, quitamos a dívida.
Minha avó - que mora hoje numa casa construída no fundo do quintal que abriga tantas memórias (aproveito para desafiar meus leitores a adivinharem quem projetou essa casa tão bem resolvida em termos de aproveitamento de espaço, iluminação e ventilação) - afirma que foi um ritual de despedida para os antigos moradores daquele terreno, envolvendo xaxim e queimas, que abriu os caminhos para a consolidação dessa conquista.
Quem sou eu pra duvidar? Agradeço profundamente, a todos os viventes e não viventes, pela graça alcançada.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Videocassete
Na década de 80 os videocassetes chegaram às casas das pessoas.
Apesar de não termos dinheiro para comprar nem Danoninho, um belo dia meus pais chegaram contentíssimos em casa.
Pareciam duas crianças. Subiram correndo as escadas. Enquanto meu pai instalava aquele trambolhão preto na TV, minha mãe segurava ansiosa as 5 fitas que alugou na primeira locadora inaugurada no bairro. Depois percebemos a importância de ela ter sido uma das clientes mais antigas, mais assíduas e com o maior tíquete médio daquele lugar: isso foi determinante para a criação do único acervo dos chamados filmes de arte num raio de 15 km.
Uma vez, eu peguei 5 filmes no início das férias - que terminaram sem que eu os tivesse devolvido. Foi uma crise de grandes proporções lá em casa. Para compensar o prejuízo, combinamos que eu ficaria 6 meses sem passar nem perto da locadora.
Resultado: fiz a carterinha na biblioteca e comecei a ler muitos livros das coleções Vagalume, Tramas e Transas, Encontros e Desencontros, Para Gostar de Ler, ... Além deles terem me ajudado a viver muitas aventuras, me deram um importante argumento para tentar reduzir a minha pena: aos 3 meses de uso semanal da biblioteca, não tinha atrasado em 1 dia sequer a devolução dos livros.
Chamei meu pai para uma reunião e ele não resistiu ao "poder dos meus argumentos". Foi assim que pude voltar a alugar minhas fitas.
Acredito que alguns filmes que vi naquele videocassete fizeram parte da minha constituição pessoal: "Thelma & Louise" me fez valorizar a coragem feminina; "A Insustentável Leveza do Ser" me sensibilizou para as noções de público e privado, liberdade e cerceamento; "Retratos da Vida" contribuiu para fortalecer minha aversão à guerra; "Shirley Valentine", bem, esse eu só fui entender muito tempo depois...
Gosto de narrativas. De contextos, de evoluções, de clímax, de transformações, de gente em construção.
E também gosto de finais felizes.
Apesar de não termos dinheiro para comprar nem Danoninho, um belo dia meus pais chegaram contentíssimos em casa.
Pareciam duas crianças. Subiram correndo as escadas. Enquanto meu pai instalava aquele trambolhão preto na TV, minha mãe segurava ansiosa as 5 fitas que alugou na primeira locadora inaugurada no bairro. Depois percebemos a importância de ela ter sido uma das clientes mais antigas, mais assíduas e com o maior tíquete médio daquele lugar: isso foi determinante para a criação do único acervo dos chamados filmes de arte num raio de 15 km.
Uma vez, eu peguei 5 filmes no início das férias - que terminaram sem que eu os tivesse devolvido. Foi uma crise de grandes proporções lá em casa. Para compensar o prejuízo, combinamos que eu ficaria 6 meses sem passar nem perto da locadora.
Resultado: fiz a carterinha na biblioteca e comecei a ler muitos livros das coleções Vagalume, Tramas e Transas, Encontros e Desencontros, Para Gostar de Ler, ... Além deles terem me ajudado a viver muitas aventuras, me deram um importante argumento para tentar reduzir a minha pena: aos 3 meses de uso semanal da biblioteca, não tinha atrasado em 1 dia sequer a devolução dos livros.
Chamei meu pai para uma reunião e ele não resistiu ao "poder dos meus argumentos". Foi assim que pude voltar a alugar minhas fitas.
Acredito que alguns filmes que vi naquele videocassete fizeram parte da minha constituição pessoal: "Thelma & Louise" me fez valorizar a coragem feminina; "A Insustentável Leveza do Ser" me sensibilizou para as noções de público e privado, liberdade e cerceamento; "Retratos da Vida" contribuiu para fortalecer minha aversão à guerra; "Shirley Valentine", bem, esse eu só fui entender muito tempo depois...
Gosto de narrativas. De contextos, de evoluções, de clímax, de transformações, de gente em construção.
E também gosto de finais felizes.
domingo, 16 de novembro de 2008
Política e Democracia
A década de 80 foi muito importante para a democracia brasileira. Primeiro, aconteceu a passagem do poder dos militares para um presidente civil - que morreu em seguida. Depois, veio o bigodudo maranhense do Plano Cruzado. Depois aconteceu a eleição do caçador de marajás.
Dessas épocas me lembro de ver meus pais preocupadíssimos, acompanhando na TV o cortejo do caixão coberto com a bandeira, sem conseguir que alguém conseguisse me fazer entender o que estava acontecendo.
Depois me lembro de ver um montão de gente nas passeatas pelas "Diretas Já!" e meu pai falando que "a mamãe estava aparecendo na TV". Forcei muito a vista para enxergar, mas não vi nada.
Também me lembro da inflação galopante. Ela fazia com que meu pai ligasse pra minha mãe no dia em que recebia o pagamento e assim nos aprontávamos depressa para chegarmos ao supermercado o mais rápido possível.
Naquela época fazíamos uma compra enorme, pro mês inteiro, e tentávamos sempre pegar os pacotes da direita do etiquetador (antes que ele conseguisse terminar de remarcar os preços). Foi nessa época que compramos o freezer, pra poder estocar carnes por mais tempo.
Nas eleições de 89, fui ao meu primeiro comício - o mais lindo do mundo. Muita, muita gente no Anhangabaú cantando "é a gente junto, valeu a espera, sem medo de ser feliz". A gente realmente pensou que fosse daquela vez. Mas o Jornal Nacional editou o último debate e mudou os rumos da eleição.
Acompanhei tudo isso e acreditei que a população tem mesmo algum poder de influenciar seu próprio futuro, de mostrar sua força nas ruas, ainda que nem sempre os objetivos sejam alcançados numa primeira vez.
Talvez essas experiências tenham contribuído muito para meu jeito de pensar o futuro e o país - contruído por todos, melhor para todos.
Dessas épocas me lembro de ver meus pais preocupadíssimos, acompanhando na TV o cortejo do caixão coberto com a bandeira, sem conseguir que alguém conseguisse me fazer entender o que estava acontecendo.
Depois me lembro de ver um montão de gente nas passeatas pelas "Diretas Já!" e meu pai falando que "a mamãe estava aparecendo na TV". Forcei muito a vista para enxergar, mas não vi nada.
Também me lembro da inflação galopante. Ela fazia com que meu pai ligasse pra minha mãe no dia em que recebia o pagamento e assim nos aprontávamos depressa para chegarmos ao supermercado o mais rápido possível.
Naquela época fazíamos uma compra enorme, pro mês inteiro, e tentávamos sempre pegar os pacotes da direita do etiquetador (antes que ele conseguisse terminar de remarcar os preços). Foi nessa época que compramos o freezer, pra poder estocar carnes por mais tempo.
Nas eleições de 89, fui ao meu primeiro comício - o mais lindo do mundo. Muita, muita gente no Anhangabaú cantando "é a gente junto, valeu a espera, sem medo de ser feliz". A gente realmente pensou que fosse daquela vez. Mas o Jornal Nacional editou o último debate e mudou os rumos da eleição.
Acompanhei tudo isso e acreditei que a população tem mesmo algum poder de influenciar seu próprio futuro, de mostrar sua força nas ruas, ainda que nem sempre os objetivos sejam alcançados numa primeira vez.
Talvez essas experiências tenham contribuído muito para meu jeito de pensar o futuro e o país - contruído por todos, melhor para todos.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
TK85
Segundo a amiga Wikipedia, na década de 80 os computadores se popularizaram. Eu estava lá e vi isso acontecendo desde o começo.
Meu pai é pesquisador do IPT desde que nasceu e, portanto, sempre teve acesso antes ao que estaria por vir. Foi assim que, quando eu tinha uns 3 anos, ele chegou com um TK85 em casa.
Era um computadorzinho que tinha 64 kilobytes (KILO-bytes!) de RAM. Tinha um componente com um interpretador de Basic e os programas ele lia de um... gravador a pilha! Sim, desses que liam fitas cassete (e que a gente utilizava canetas Bic para rebobinar - para não gastar as pilhas que não eram nem alcalinas, nem recarregáveis). Ouvir aquelas fitas era como ouvir a tela das "formigas" que passavam na TV quando estas saiam do ar. E eu me perguntava como era possível que aquele joguinho tão legal do labirinto pudesse estar escrito naquele barulhão.
Também tinha o Atari. Ao invés de comprarmos os cartuchos dos jogos, meu pai copiava o programa em circuitos integrados virgens (!). Era só tirar o componente do encaixe e substituir por outro. A tecnologia da minha casa avançou quando ele implementou uma alavanca para fixar e liberar o CI com mais facilidade. Genial, esse meu pai.
Depois veio o Apple, medindo pouco menos de 1 metro quadrado de área, a partir de uma vista aérea. Nele havia um jogo que tentava adivinhar o animal que você tinha pensado. Se não acertasse, te fazia uma pergunta e aprendia o novo animal para acertar da próxima vez. Muito esperto esse programa. Mas muito ingênuo também (a gente contava um monte de mentiras e ele fazia papel de bobo de vez em quando).
Essas são as memórias digitais da primeira década da minha vida. Muito tempo depois agreguei na minha vida a robótica, a eletrônica, a pneumática e vai, vai, vai... até uma feira de nanotecnologia que visitei ontem - e que merece um post exclusivo, depois que essa missão de retrospectiva acabar.
O fato é que acho tecnologia um grande barato!
Meu pai é pesquisador do IPT desde que nasceu e, portanto, sempre teve acesso antes ao que estaria por vir. Foi assim que, quando eu tinha uns 3 anos, ele chegou com um TK85 em casa.
Era um computadorzinho que tinha 64 kilobytes (KILO-bytes!) de RAM. Tinha um componente com um interpretador de Basic e os programas ele lia de um... gravador a pilha! Sim, desses que liam fitas cassete (e que a gente utilizava canetas Bic para rebobinar - para não gastar as pilhas que não eram nem alcalinas, nem recarregáveis). Ouvir aquelas fitas era como ouvir a tela das "formigas" que passavam na TV quando estas saiam do ar. E eu me perguntava como era possível que aquele joguinho tão legal do labirinto pudesse estar escrito naquele barulhão.
Também tinha o Atari. Ao invés de comprarmos os cartuchos dos jogos, meu pai copiava o programa em circuitos integrados virgens (!). Era só tirar o componente do encaixe e substituir por outro. A tecnologia da minha casa avançou quando ele implementou uma alavanca para fixar e liberar o CI com mais facilidade. Genial, esse meu pai.
Depois veio o Apple, medindo pouco menos de 1 metro quadrado de área, a partir de uma vista aérea. Nele havia um jogo que tentava adivinhar o animal que você tinha pensado. Se não acertasse, te fazia uma pergunta e aprendia o novo animal para acertar da próxima vez. Muito esperto esse programa. Mas muito ingênuo também (a gente contava um monte de mentiras e ele fazia papel de bobo de vez em quando).
Essas são as memórias digitais da primeira década da minha vida. Muito tempo depois agreguei na minha vida a robótica, a eletrônica, a pneumática e vai, vai, vai... até uma feira de nanotecnologia que visitei ontem - e que merece um post exclusivo, depois que essa missão de retrospectiva acabar.
O fato é que acho tecnologia um grande barato!
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