Chico Buarque lançou seu primeiro livro, Estorvo, no início dos anos 90. E foi no início dos anos 90 que recebi os maiores incentivos para escrever. A maior entusiasta da minha carreira como escritora mirim foi a professora Dora.
Me lembro que como ela ficou inconsolável quando decidi sair da escola na 8ª série para entrar no curso técnico de Automação da Manufatura. "Você não vai escrever mais nenhuma redaçãozinha?" foi a única frase que ela conseguiu dizer. E tinha toda a razão.
A Dora pediu uma vez pra gente escrever uma descrição de um professor. Alguns dias antes, eu tinha usado um adjunto adverbial muito bem colocado (certamente por influência da "Tabacaria", de Fernando Pessoa) num outro texto. Recebi um mega elogio dela! Com a solicitação da descrição de um professor, identifiquei imediatamente a grande chance e pus minhas mãos à obra.
O texto que escrevi utilizava basicamente adjuntos adverbiais e adjetivos, todos em relação de oposição entre si. Terminava com "matematicamente metafórico, simplesmente complexo, comprovadamente humano". Reli o texto com a certeza de que aquela tarde procurando sinônimos e antônimos no dicionário tinha valido a pena. O texto tinha estilo, ritmo, força. Eu me sentia a própria herdeira do legado de Chico Buarque, para dizer o mínimo.
Alguns dias depois a Dora me chamou pra conversar e perguntou como foi o processo de escrita da redação. Contei toda a empreitada, ela agradeceu a explicação e, alguns dias depois, chegou a minha nota. Eu tinha tirado B.
Li muitas vezes a justificativa que acompanhava o B até conseguir entender o que tinha acontecido. Ela dizia que o objetivo não era que nós fizéssemos um texto construído, artificial. Como se os grandes escritores não trabalhassem muito em seus textos antes de serem publicados! Vai entender...
O mais legal de tudo foi que isso não abalou em nada minha confiança no meu texto, como seria de se esperar de mim. Apenas entendi naquele momento que critérios são critérios e que gosto não se discute. Segui feliz com a minha vida (e com meu texto).
Convicção é algo que realmente devemos praticar em tudo o que fizermos. Vive-se muito melhor quando se conta com ela.
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domingo, 21 de dezembro de 2008
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Música na televisão
Nos anos 80, a TV nos trouxe muitas coisas interessantes. Outras nem tanto, mas de não menor influência. E aqui vou me deter sobre as músicas que conheci por meio da telinha.
Começando pela parte de gosto discutível, os anos 80 foram repletos de Menudos e Dominós. Eu, como todas as meninas da época, tinha meu integrante preferido. Em geral eu não escolhia o preferido da maioria e me sentia muito autêntica por isso. E seguia repetindo roboticamente os sempre mesmos passos das dancinhas...
Uma vez meu pai flagrou eu e minhas primas ensaiando um show que apresentaríamos para os adultos. O ponto alto do espetáculo seria uma exibição inédita da coreografia da música "Não se reprima". Pra quem se lembra, tratava-se de uma sequência frenética de exercícios de bíceps/tríceps entremeados por giros bobos ao redor de si mesmo. Nada faria mais sentido. Pois bem, antes que pudéssemos apresentar a obra, meu pai mobilizou minha mãe e meus tios para ELES apresentarem um show para nós. Até hoje me lembro como era engraçado ver aqueles adultos nos imitando, exagerando movimentos, parecendo verdadeiros débeis mentais. Surtiu o efeito desejado! Eles se livraram de ter que falar que aquela porcaria que estávamos ensaiando era "linda!" e fomos obrigadas a exercitar o senso crítico a partir daí.
Também foi pela televisão que eu conheci, e gravei, um show da Madonna dos áureos tempos. Era um show em que ela cantava "Like a Virgin" com um vestido rodado azul claro, "La Isla Bonita" com uma roupa de espanhola vermelhíssima, uma outra música que esqueci com aquele espartilho creme de peitos em formato de cone. Esse show me despertou a paixão pelos figurinos.
Mas a coisa que eu mais gosto de lembrar (e rever) é uma série de shows televisionados que passavam após o horário da novela, em que Chico Buarque e Caetano Veloso traziam convidados para cantar com eles. Era tão bonito aquilo! Era tão rico de vozes e letras e temas e superações! Esses shows definiram meu gosto musical durante muito tempo. Ainda mais pela visível amizade que permeava aquelas pessoas e aquelas letras que muitas vezes eu custava a entender...
Nos anos 80, assim como é hoje e será sempre, as crianças têm acesso a infernos e maravilhas pela TV (hoje também pela internet). Faz parte da missão educá-las para ver e para fazer escolhas.
Escolhas bem feitas fazem um bem enorme para o coração.
Começando pela parte de gosto discutível, os anos 80 foram repletos de Menudos e Dominós. Eu, como todas as meninas da época, tinha meu integrante preferido. Em geral eu não escolhia o preferido da maioria e me sentia muito autêntica por isso. E seguia repetindo roboticamente os sempre mesmos passos das dancinhas...
Uma vez meu pai flagrou eu e minhas primas ensaiando um show que apresentaríamos para os adultos. O ponto alto do espetáculo seria uma exibição inédita da coreografia da música "Não se reprima". Pra quem se lembra, tratava-se de uma sequência frenética de exercícios de bíceps/tríceps entremeados por giros bobos ao redor de si mesmo. Nada faria mais sentido. Pois bem, antes que pudéssemos apresentar a obra, meu pai mobilizou minha mãe e meus tios para ELES apresentarem um show para nós. Até hoje me lembro como era engraçado ver aqueles adultos nos imitando, exagerando movimentos, parecendo verdadeiros débeis mentais. Surtiu o efeito desejado! Eles se livraram de ter que falar que aquela porcaria que estávamos ensaiando era "linda!" e fomos obrigadas a exercitar o senso crítico a partir daí.
Também foi pela televisão que eu conheci, e gravei, um show da Madonna dos áureos tempos. Era um show em que ela cantava "Like a Virgin" com um vestido rodado azul claro, "La Isla Bonita" com uma roupa de espanhola vermelhíssima, uma outra música que esqueci com aquele espartilho creme de peitos em formato de cone. Esse show me despertou a paixão pelos figurinos.
Mas a coisa que eu mais gosto de lembrar (e rever) é uma série de shows televisionados que passavam após o horário da novela, em que Chico Buarque e Caetano Veloso traziam convidados para cantar com eles. Era tão bonito aquilo! Era tão rico de vozes e letras e temas e superações! Esses shows definiram meu gosto musical durante muito tempo. Ainda mais pela visível amizade que permeava aquelas pessoas e aquelas letras que muitas vezes eu custava a entender...
Nos anos 80, assim como é hoje e será sempre, as crianças têm acesso a infernos e maravilhas pela TV (hoje também pela internet). Faz parte da missão educá-las para ver e para fazer escolhas.
Escolhas bem feitas fazem um bem enorme para o coração.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Videocassete
Na década de 80 os videocassetes chegaram às casas das pessoas.
Apesar de não termos dinheiro para comprar nem Danoninho, um belo dia meus pais chegaram contentíssimos em casa.
Pareciam duas crianças. Subiram correndo as escadas. Enquanto meu pai instalava aquele trambolhão preto na TV, minha mãe segurava ansiosa as 5 fitas que alugou na primeira locadora inaugurada no bairro. Depois percebemos a importância de ela ter sido uma das clientes mais antigas, mais assíduas e com o maior tíquete médio daquele lugar: isso foi determinante para a criação do único acervo dos chamados filmes de arte num raio de 15 km.
Uma vez, eu peguei 5 filmes no início das férias - que terminaram sem que eu os tivesse devolvido. Foi uma crise de grandes proporções lá em casa. Para compensar o prejuízo, combinamos que eu ficaria 6 meses sem passar nem perto da locadora.
Resultado: fiz a carterinha na biblioteca e comecei a ler muitos livros das coleções Vagalume, Tramas e Transas, Encontros e Desencontros, Para Gostar de Ler, ... Além deles terem me ajudado a viver muitas aventuras, me deram um importante argumento para tentar reduzir a minha pena: aos 3 meses de uso semanal da biblioteca, não tinha atrasado em 1 dia sequer a devolução dos livros.
Chamei meu pai para uma reunião e ele não resistiu ao "poder dos meus argumentos". Foi assim que pude voltar a alugar minhas fitas.
Acredito que alguns filmes que vi naquele videocassete fizeram parte da minha constituição pessoal: "Thelma & Louise" me fez valorizar a coragem feminina; "A Insustentável Leveza do Ser" me sensibilizou para as noções de público e privado, liberdade e cerceamento; "Retratos da Vida" contribuiu para fortalecer minha aversão à guerra; "Shirley Valentine", bem, esse eu só fui entender muito tempo depois...
Gosto de narrativas. De contextos, de evoluções, de clímax, de transformações, de gente em construção.
E também gosto de finais felizes.
Apesar de não termos dinheiro para comprar nem Danoninho, um belo dia meus pais chegaram contentíssimos em casa.
Pareciam duas crianças. Subiram correndo as escadas. Enquanto meu pai instalava aquele trambolhão preto na TV, minha mãe segurava ansiosa as 5 fitas que alugou na primeira locadora inaugurada no bairro. Depois percebemos a importância de ela ter sido uma das clientes mais antigas, mais assíduas e com o maior tíquete médio daquele lugar: isso foi determinante para a criação do único acervo dos chamados filmes de arte num raio de 15 km.
Uma vez, eu peguei 5 filmes no início das férias - que terminaram sem que eu os tivesse devolvido. Foi uma crise de grandes proporções lá em casa. Para compensar o prejuízo, combinamos que eu ficaria 6 meses sem passar nem perto da locadora.
Resultado: fiz a carterinha na biblioteca e comecei a ler muitos livros das coleções Vagalume, Tramas e Transas, Encontros e Desencontros, Para Gostar de Ler, ... Além deles terem me ajudado a viver muitas aventuras, me deram um importante argumento para tentar reduzir a minha pena: aos 3 meses de uso semanal da biblioteca, não tinha atrasado em 1 dia sequer a devolução dos livros.
Chamei meu pai para uma reunião e ele não resistiu ao "poder dos meus argumentos". Foi assim que pude voltar a alugar minhas fitas.
Acredito que alguns filmes que vi naquele videocassete fizeram parte da minha constituição pessoal: "Thelma & Louise" me fez valorizar a coragem feminina; "A Insustentável Leveza do Ser" me sensibilizou para as noções de público e privado, liberdade e cerceamento; "Retratos da Vida" contribuiu para fortalecer minha aversão à guerra; "Shirley Valentine", bem, esse eu só fui entender muito tempo depois...
Gosto de narrativas. De contextos, de evoluções, de clímax, de transformações, de gente em construção.
E também gosto de finais felizes.
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