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sábado, 27 de dezembro de 2008

A escolha profissional

Nos anos 90 já estava a todo vapor a disseminação da ideologia pró-globalização. As pressões por competência, informação, produtividade, mobilidade (...) eram constantes. O fantasma do desemprego estrutural estava sempre por perto, nas reportagens praticamente diárias sobre a dificuldade de todos (e mais especialemnte dos jovens) conseguirem seu primeiro emprego.

Não passei impune por tudo isso. Não passei impune principalmente pelo que meus pais pensavam sobre tudo isso.

Não cursei o colegial regular. Não achava meu colégio suficientemente bom e, por alguma razão, não quis mudar para outro. Neguei todos. 8 ou 80. Com o apoio do meu pai.

Além da decepção com o colégio, existia o contraste entre a infelicidade da minha mãe - pessoa de humanas - e a indisfarçável empolgação do meu pai - pessoa de exatas. Comprei a idéia de que, com o pacotinho correto (o das exatas), minha vida seria boa.

Nessa época, já tinha uma grande experiência em renunciar - a ponto de não reconhecer - meus próprios desejos. Aí entra o apoio da minha mãe (na realidade, estou falando aqui do incentivo ao subterfúgio de questionar e suprimir as próprias vontades, sugerido em tantas outras ocasiões).

Em função dessa escolha, desviei da rota que me seria mais natural e vaguei insatisfeita e incompleta por aí, por muito tempo.

A questão estaria melhor resolvida se as origens do pensamento que desembocaram na escolha equivocada estivessem superados. Se as armadilhas estivessem mapeadas e não houvesse mais nenhum perigo.

Mas sei que eu ainda sou essencialmente a mesma. Com essa habilidade extrema de me esconder de mim mesma para não deixar vir à tona que, na verdade, eu preferiria mesmo era tomar o caminho mais arriscado.

Sou assim e é isso que me deixa triste.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Cartas de amor e desamor

Nos anos 90 aconteceu a popularização do e-mail. Mas eu ainda escrevi muitas cartas antes do e-mail efetivamente ter um impacto na minha vida.

A sensação de receber cartas é incomparavelmente mais interessante do que a de receber e-mails. Especialmente as cartas de amor.

Cartas vêm escritas na letra da pessoa, muitas vezes borrifada com o perfume da pessoa e nunca escrita secamente, até porque escrever e postar cartas exige um esforço e, portanto, um envolvimento e uma intenção maior por parte do remetente de ver a mensagem chegar a seu destino.

Escrevi algumas cartas de amor para o meu primeiro namorado, um homem lindo e alto e cheio de histórias interessantes pra contar.

A história da conquista desse primeiro namoro é bem bonita. Teve direito a olhares, disputa entre amigos pelo amor da donzela, rosa roubada com recado nas folhas, aquela pontinha de ciúmes ao vê-lo abraçado com outras modelos na sessão de moda da revista Querida.

Infelizmente, o moço escreveu casal com "u" numa carta que me enviou. Acredite se quiser: aquilo foi demais pra mim. Óbvio que ele nunca soube que este foi o verdadeiro motivo da coisa mais cruel que fiz em toda minha vida: terminei um namoro à distância de 6 meses, por telefone, depois de 4 meses na base das correspondências. Lembro que fiz isso para não correr o risco de me encantar por ele mais uma vez e não ter coragem de levar a cabo minha decisão.

Óbvio que, se tivesse a cabeça de hoje, eu teria feito tudo diferente.

Antonio Caetano Cintra Neto, se um dia você procurar seu nome no Google e cair aqui, saiba que eu lamento profundamente pelo que aconteceu. Você era uma pessoa muito bacana, de verdade, não merecia isso. Espero que hoje você seja/esteja feliz.

Meu marido tem o palpite de que, se tivermos a chance de conversar com quem nos traumatizou, nos surpreenderemos ao perceber que esta pessoa talvez nem se lembre do que fez - tão preocupada que terá estado em cuidar de seus próprios traumas, causados por outras pessoas.

Ou talvez se lembre perfeitamente, mas revele que não tinha um único bom motivo pra fazer o que fez.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Amizades

Nos anos 80, o Colégio Gávea existia.

O Gávea é uma escola que guardo com muito carinho dentro do meu coração. Reencontrei sua antiga dona numa viagem recente a Petrópolis e entendi melhor porque a escola era do jeito que era: crianças passando o recreio na sala da diretora (explorando jogos e outras coisas interessantes), aula de ouvir histórias e de cantas música dos titãs (dentro da própria grade curricular), meu poeminha sobre a Amazônia virando ficha de estudos de todos os alunos da 4ª série... Como escola, era um sonho (algo que um dia eu quero proporcionar pros meus filhos). Mas também foi palco de muitos momentos difíceis na minha vida.

Por um azar incrível, as duas pessoas que eu costumava chamar de amigas no início da minha vida eram tudo, menos amigas. Hoje sei que existe nome para o que eu vivia: bullying. Não recomendo.

Minha reação ao ser colocada continuamente "de gelo" (situação em que a regra é as pessoas agirem como se você não existisse), orientada pela voz experiente da minha mãe, foi aprender a não ligar, a viver sem precisar de amigos, a me bastar.

Sinto que, mesmo depois de passada a fase brava, nunca mais consegui incluir realmente as amizades na minha vida. Elas existem, eu adoro de paixão meus amigos, mas eles ocupam um lugar marginal na minha rotina. Isso é uma coisa que eu acho, de certa forma, triste (mas só quando paro pra pensar. Do contrário, nem percebo que isso acontece).

Aos dez anos, quando eu estava na 4ª série, quase que tudo passou a ser diferente. Por pouco. Eu me espantei de mudar de classe e tanta gente passar a me achar uma pessoa legal. Fui incluída, convidada, considerada, enturmada. Até hoje acho que aquele foi o ano mais feliz da minha vida (até pelo contraste com os anteriores).

Foi nesse ano que a escola fechou e, com ela, fechou-se também minha janela de oportunidade. As pessoas se espalharam por muitos colégios e eu, bem, não senti imediatamente o quanto tinha me ressentido.

Creio que foi desse momento como em diante que eu eu coloquei definitivamente minhas metas (meus escudos) acima dos meus sentimentos. A partir daí fiz muitas escolhas sem me dar ouvidos de fato. O que me levou pra longe de mim mesma muitas (e importantes) vezes.

Hoje me tenho mais perto. Porém com as idiossincrasias que carrego dessas andanças. Com muitas coisas ainda por equilibrar.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Ações em baixa

Estou num dia daqueles bem confusos. Querendo o que não tenho, tentando e não conseguindo, reclamando silenciosamente e não sabendo se tenho direito de exigir alguma coisa.