Há dois dias teria sido mais fácil escrever sobre essa felicidade, acontecida aqui mesmo na realidade, não-ficção. Minha cabeça ainda não estava tão bagunçada e eu podia ser feliz sem ressalvas. Agora escrevo com uma felicidade um pouco interrompida, mas ainda assim, isso importa. Da cabeça eu cuido logo mais.
Pois bem, essa criança de 8 anos que eu não conheço bem estava perdendo o chamado final para aprender a ler e escrever (antes de se ver condenado para sempre). A professora já não tinha esperanças. Ele estava, além disso, ressentido por ter que ficar sozinho em casa e pelo fato do pai ter ido embora pra Bahia sem avisar ninguém. Revoltou-se, é justo. Recebeu o troco, como era nos antigamentes. A bola de neve começava a aumentar.
Onde tudo era complexidade e impotência, eu apostei na conquista das palavras. Apostei no pouco que aquela mãe sabia a respeito das letras e no muito amor que tinha por esse filho.
Descobri mais de 40 palavras que podiam ser escritas apenas com as letras do nome do menino - a única coisa que ele sabia escrever. Apostei em tudo o que ele poderia concluir sozinho, colocando as palavras numa disposição calculada, algumas estratégicas lado a lado.
Mostrei meu plano para a mãe, ajustamos, eliminamos algumas palavras que ela não conhecia e imprimi aquela tentativa. Apostamos naquele papel como num bilhete premiado.
E o menino despertou. Não sei se pelo amor de mãe, se pela atenção dessa estranha que se debruçou sobre as letras do seu nome ou se pela genialidade do sistema alfabético. O fato é que ele quer conhecer outras palavras e desvendar as propriedades de outras letras.
E seu coração está mais calmo.
E seu pai ligou.
E sua mãe encontrou alguém que pode ficar com ele, quando ela não está.
A professora passou a ver vida onde via seca.
A mãe passou a ver uma mestra, ainda que frágil, onde só via lacunas.
E a estranha viu, na contramão do comumente, a beleza corroendo a dúvida.
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terça-feira, 27 de março de 2012
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Água
Acredito que meus descendentes lerão o post abaixo com a mesma incredulidade que experimentamos quando pessoas nos dizem que nadavam no Rio Tietê.
Tenho certeza que as gerações vindouras não terão a mesma felicidade que eu tive nos anos 80, época em que meu contato com a água era muito mais frequente, duradouro e aproveitado.
Por exemplo... eu e minhas primas inventamos o "banho de caneca": uma de nós agachava e a outra, depois de encher a leiteira até a boca, avisava a outra para que prendesse a respiração e, em seguida, despejava aquele montaréu de água caudalosa de sua cabeça. Havia uma velocidade certa que tornava tudo mais delicioso: nem tão rápido que a água não descesse como uma carícia, nem tão devagar se não deixasse o cabelo bem liso enquanto escorria. Era uma curtição.
Regar as plantas do quintal também era uma tarefa que eu gostava de realizar. Como a mangueira era curta, eu tinha que diminuir a abertura para aumentar a pressão e encontrar a inclinação correta para que a água alcançasse as plantas mais distantes. Me divertia com os desenhos que a água formava ao sair da mangueira. Gostava também quando conseguia produzir uma atmosfera toda respingada e formava arco-irís bem ao alcance da minha mão.
Gostava de lavar carro e banheiro, de escorregar nos azulejos cheios de sabão, de molhar toda a roupa num dia de sol.
Também tomava muito banho de banheira. Quando era bem pequena, usava o espaldar como escorregador e, na queda, espalhava água no banheiro inteiro. Quando maior, ficava horas submersa, jogando a cabeça de um lado pra outro, fazendo os cabelos mexerem gostoso com o couro cabeludo. A água tão quentinha ia aquecendo e enrrugando a pele.
Uma vez, participei de um banho de esguicho no Gávea. Um professor de educação física ficava bem longe com uma mangueirona de bombeiro, molhando a meninada já preparada com seus trajes de banho, com autorização assinada pelos pais.
No Gávea também, num dia de muito calor, participei de uma desobediência coletiva em que toda a 4ª série invadiu os banheiros dos funcionários, se encharcou de água fria e saiu pingando pelos corredores de tapetes verdes daquela área restrita destinada ao pessoal da administração.
Naquele dia eu realmente não entendi nada. Sempre fui uma menina exemplar, obediente, que evitava broncas a todo custo. Relutei em participar da farra, mas o calor estava demais. Quando fomos descobertos, me arrependi, fiquei precupada, pensei que fosse perder a bolsa de estudos, tudo de ruim.
Mas o que aconteceu foi que os adultos se preocuparam muito mais com a nossa saúde do que com o tapete. Arrumaram toalhas e uniformes sequinhos pra gente vestir, foram atenciosos e amáveis.
Deve ser o poder da água na minha vida, que transmuta tudo o que há de ruim e devolve em tudo que há de bom.
Tenho certeza que as gerações vindouras não terão a mesma felicidade que eu tive nos anos 80, época em que meu contato com a água era muito mais frequente, duradouro e aproveitado.
Por exemplo... eu e minhas primas inventamos o "banho de caneca": uma de nós agachava e a outra, depois de encher a leiteira até a boca, avisava a outra para que prendesse a respiração e, em seguida, despejava aquele montaréu de água caudalosa de sua cabeça. Havia uma velocidade certa que tornava tudo mais delicioso: nem tão rápido que a água não descesse como uma carícia, nem tão devagar se não deixasse o cabelo bem liso enquanto escorria. Era uma curtição.
Regar as plantas do quintal também era uma tarefa que eu gostava de realizar. Como a mangueira era curta, eu tinha que diminuir a abertura para aumentar a pressão e encontrar a inclinação correta para que a água alcançasse as plantas mais distantes. Me divertia com os desenhos que a água formava ao sair da mangueira. Gostava também quando conseguia produzir uma atmosfera toda respingada e formava arco-irís bem ao alcance da minha mão.
Gostava de lavar carro e banheiro, de escorregar nos azulejos cheios de sabão, de molhar toda a roupa num dia de sol.
Também tomava muito banho de banheira. Quando era bem pequena, usava o espaldar como escorregador e, na queda, espalhava água no banheiro inteiro. Quando maior, ficava horas submersa, jogando a cabeça de um lado pra outro, fazendo os cabelos mexerem gostoso com o couro cabeludo. A água tão quentinha ia aquecendo e enrrugando a pele.
Uma vez, participei de um banho de esguicho no Gávea. Um professor de educação física ficava bem longe com uma mangueirona de bombeiro, molhando a meninada já preparada com seus trajes de banho, com autorização assinada pelos pais.
No Gávea também, num dia de muito calor, participei de uma desobediência coletiva em que toda a 4ª série invadiu os banheiros dos funcionários, se encharcou de água fria e saiu pingando pelos corredores de tapetes verdes daquela área restrita destinada ao pessoal da administração.
Naquele dia eu realmente não entendi nada. Sempre fui uma menina exemplar, obediente, que evitava broncas a todo custo. Relutei em participar da farra, mas o calor estava demais. Quando fomos descobertos, me arrependi, fiquei precupada, pensei que fosse perder a bolsa de estudos, tudo de ruim.
Mas o que aconteceu foi que os adultos se preocuparam muito mais com a nossa saúde do que com o tapete. Arrumaram toalhas e uniformes sequinhos pra gente vestir, foram atenciosos e amáveis.
Deve ser o poder da água na minha vida, que transmuta tudo o que há de ruim e devolve em tudo que há de bom.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Palavras de criança
Aproveitando o post anterior sobre palavras escritas, vale a pena escrever sobre memórias envolvendo minhas palavras faladas.
Uma das primeiras coisas que minha mãe me ensinou a falar foi meu número de telefone. Imaginem um toquinho de gente falando "869-2165". O plano ela era que, caso a gente se perdesse, quem achasse pudesse ligar em casa. Foi exatamente isso que eu fiz quando me perdi no CEASA. Lembro vagamente de algumas cenas desse dia.
Outra coisa que minha avó sempre se lembra é que eu e meu irmão nem ligávamos quando algum brinquedo quebrava. A gente falava "papai conseita" e continuava brincando com alguma outra coisa até meu pai chegar do trabalho.
Eu chamava bolacha de "Pa-ti-tum". Ninguém sabe muito bem de onde eu tirei essa palavra, mas desconfio que essa é a onomatopéia referente ao barulho que o maxilar do meu pai faz quando ele come alguma coisa crocante.
Agora, a história mais engraçada envolvendo coisas que eu falei (e que minha tia não me deixa esquecer) e aconteceu quando eu estava mais grandinha, falando frases mais completas.
Foi assim:
Meu pai e meu tio deram pra comentar sobre os atributos femininos traseiros, comparando-os ao formato das frutas. Cometeram o erro primário cometido por todos os adultos em algum momento: o de considerar que a criança não está prestando atenção na conversa ou que, caso esteja, nunca fará nada com as informações obtidas.
Pois bem: aquele ano era o ano em que o fio dental estava sendo lançado. E eis que uma das pioneiras passou ao lado do meu baldinho de areia e, voila!, o formato era exatamente o formato da pêra! Saí em disparada pela praia atrás do meu pai gritando: "Pai, olha a bunda que você gosta!". Minha tia ri até hoje das caras enverganhadíssimas do meu pai e da moça (que no final das contas deve ter achado uma péssima idéia ter comprado aquele biquini diferente).
Eu só me lembro da minha sincera preocupação em fazer com que meu pai entendesse o que eu estava dizendo (ele estranhamente parecia não estar me ouvindo, apesar de eu estar falando bem alto).
Esse episódio talvez tenha sido a minha porta de entrada para o mundo dos adultos, no sentido de entender um pouco melhor os conceitos de público e privado nas comunicações, especialmente quando o assunto envolve sexo.
Freud explica, mas explica sempre atrasado e nunca para crianças.
Uma das primeiras coisas que minha mãe me ensinou a falar foi meu número de telefone. Imaginem um toquinho de gente falando "869-2165". O plano ela era que, caso a gente se perdesse, quem achasse pudesse ligar em casa. Foi exatamente isso que eu fiz quando me perdi no CEASA. Lembro vagamente de algumas cenas desse dia.
Outra coisa que minha avó sempre se lembra é que eu e meu irmão nem ligávamos quando algum brinquedo quebrava. A gente falava "papai conseita" e continuava brincando com alguma outra coisa até meu pai chegar do trabalho.
Eu chamava bolacha de "Pa-ti-tum". Ninguém sabe muito bem de onde eu tirei essa palavra, mas desconfio que essa é a onomatopéia referente ao barulho que o maxilar do meu pai faz quando ele come alguma coisa crocante.
Agora, a história mais engraçada envolvendo coisas que eu falei (e que minha tia não me deixa esquecer) e aconteceu quando eu estava mais grandinha, falando frases mais completas.
Foi assim:
Meu pai e meu tio deram pra comentar sobre os atributos femininos traseiros, comparando-os ao formato das frutas. Cometeram o erro primário cometido por todos os adultos em algum momento: o de considerar que a criança não está prestando atenção na conversa ou que, caso esteja, nunca fará nada com as informações obtidas.
Pois bem: aquele ano era o ano em que o fio dental estava sendo lançado. E eis que uma das pioneiras passou ao lado do meu baldinho de areia e, voila!, o formato era exatamente o formato da pêra! Saí em disparada pela praia atrás do meu pai gritando: "Pai, olha a bunda que você gosta!". Minha tia ri até hoje das caras enverganhadíssimas do meu pai e da moça (que no final das contas deve ter achado uma péssima idéia ter comprado aquele biquini diferente).
Eu só me lembro da minha sincera preocupação em fazer com que meu pai entendesse o que eu estava dizendo (ele estranhamente parecia não estar me ouvindo, apesar de eu estar falando bem alto).
Esse episódio talvez tenha sido a minha porta de entrada para o mundo dos adultos, no sentido de entender um pouco melhor os conceitos de público e privado nas comunicações, especialmente quando o assunto envolve sexo.
Freud explica, mas explica sempre atrasado e nunca para crianças.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Música na televisão
Nos anos 80, a TV nos trouxe muitas coisas interessantes. Outras nem tanto, mas de não menor influência. E aqui vou me deter sobre as músicas que conheci por meio da telinha.
Começando pela parte de gosto discutível, os anos 80 foram repletos de Menudos e Dominós. Eu, como todas as meninas da época, tinha meu integrante preferido. Em geral eu não escolhia o preferido da maioria e me sentia muito autêntica por isso. E seguia repetindo roboticamente os sempre mesmos passos das dancinhas...
Uma vez meu pai flagrou eu e minhas primas ensaiando um show que apresentaríamos para os adultos. O ponto alto do espetáculo seria uma exibição inédita da coreografia da música "Não se reprima". Pra quem se lembra, tratava-se de uma sequência frenética de exercícios de bíceps/tríceps entremeados por giros bobos ao redor de si mesmo. Nada faria mais sentido. Pois bem, antes que pudéssemos apresentar a obra, meu pai mobilizou minha mãe e meus tios para ELES apresentarem um show para nós. Até hoje me lembro como era engraçado ver aqueles adultos nos imitando, exagerando movimentos, parecendo verdadeiros débeis mentais. Surtiu o efeito desejado! Eles se livraram de ter que falar que aquela porcaria que estávamos ensaiando era "linda!" e fomos obrigadas a exercitar o senso crítico a partir daí.
Também foi pela televisão que eu conheci, e gravei, um show da Madonna dos áureos tempos. Era um show em que ela cantava "Like a Virgin" com um vestido rodado azul claro, "La Isla Bonita" com uma roupa de espanhola vermelhíssima, uma outra música que esqueci com aquele espartilho creme de peitos em formato de cone. Esse show me despertou a paixão pelos figurinos.
Mas a coisa que eu mais gosto de lembrar (e rever) é uma série de shows televisionados que passavam após o horário da novela, em que Chico Buarque e Caetano Veloso traziam convidados para cantar com eles. Era tão bonito aquilo! Era tão rico de vozes e letras e temas e superações! Esses shows definiram meu gosto musical durante muito tempo. Ainda mais pela visível amizade que permeava aquelas pessoas e aquelas letras que muitas vezes eu custava a entender...
Nos anos 80, assim como é hoje e será sempre, as crianças têm acesso a infernos e maravilhas pela TV (hoje também pela internet). Faz parte da missão educá-las para ver e para fazer escolhas.
Escolhas bem feitas fazem um bem enorme para o coração.
Começando pela parte de gosto discutível, os anos 80 foram repletos de Menudos e Dominós. Eu, como todas as meninas da época, tinha meu integrante preferido. Em geral eu não escolhia o preferido da maioria e me sentia muito autêntica por isso. E seguia repetindo roboticamente os sempre mesmos passos das dancinhas...
Uma vez meu pai flagrou eu e minhas primas ensaiando um show que apresentaríamos para os adultos. O ponto alto do espetáculo seria uma exibição inédita da coreografia da música "Não se reprima". Pra quem se lembra, tratava-se de uma sequência frenética de exercícios de bíceps/tríceps entremeados por giros bobos ao redor de si mesmo. Nada faria mais sentido. Pois bem, antes que pudéssemos apresentar a obra, meu pai mobilizou minha mãe e meus tios para ELES apresentarem um show para nós. Até hoje me lembro como era engraçado ver aqueles adultos nos imitando, exagerando movimentos, parecendo verdadeiros débeis mentais. Surtiu o efeito desejado! Eles se livraram de ter que falar que aquela porcaria que estávamos ensaiando era "linda!" e fomos obrigadas a exercitar o senso crítico a partir daí.
Também foi pela televisão que eu conheci, e gravei, um show da Madonna dos áureos tempos. Era um show em que ela cantava "Like a Virgin" com um vestido rodado azul claro, "La Isla Bonita" com uma roupa de espanhola vermelhíssima, uma outra música que esqueci com aquele espartilho creme de peitos em formato de cone. Esse show me despertou a paixão pelos figurinos.
Mas a coisa que eu mais gosto de lembrar (e rever) é uma série de shows televisionados que passavam após o horário da novela, em que Chico Buarque e Caetano Veloso traziam convidados para cantar com eles. Era tão bonito aquilo! Era tão rico de vozes e letras e temas e superações! Esses shows definiram meu gosto musical durante muito tempo. Ainda mais pela visível amizade que permeava aquelas pessoas e aquelas letras que muitas vezes eu custava a entender...
Nos anos 80, assim como é hoje e será sempre, as crianças têm acesso a infernos e maravilhas pela TV (hoje também pela internet). Faz parte da missão educá-las para ver e para fazer escolhas.
Escolhas bem feitas fazem um bem enorme para o coração.
domingo, 30 de novembro de 2008
Cartas, notícias e negociações
Nos anos 80, a carta, escrita de próprio punho, era a forma escolhida para mandar notícias de menor urgência para parentes e amigos distantes. As notícias de urgência mediana iam por telefone, após as 20h00, quando a tarifa era mais barata. Se a notícia era urgente mesmo, ligava-se na hora.
Notícias de uma menina de 7 anos para primas de 9 e 11 anos em geral não eram consideradas urgentes. Falávamos sobre a escola, sobre os passeios que tínhamos feito, sobre as brincadeiras, sobre os doces que tínhamos comido.
Escrevíamos cartas e tínhamos coleções de papéis de carta. Passávamos muitas horas de nossas pequenas vidas admirando a beleza de cada um dos retângulos tamanho A5 impressos. E outras muitas horas alterando a ordem da pasta para uma exibição perfeita (talvez venha daí minha mania de editar albuns de fotografia...)
Quando me lembro da minha coleção, imediatamente me vem à cabeça três episódios: o do papel de carta mais feio do mundo, o do papel de carta do apontador de arco-íris e o do papel de carta do coelhinho.
O papel de carta mais feio do mundo foi um bloco que minha mãe uma vez trouxe para mim com 20 exemplares em que figurava uma menina comum, de cara um pouco quadrada, um tanto desarrumada pelo vento, em vermelho e sépia. Ela veio toda feliz, achando o papel de carta lindo. Naquele dia descobri que gosto não se discute.
O papel de carta do apontador de arco-íris era, este sim, um dos papéis de carta mais lindos do mundo. Que eu troquei com uma menina sem ter um repetido por causa de uma chantagem. Me arrependi amargamente, rodei o mundo atrás do mesmo papel de carta para comprar ou para trocar, sem sucesso. Naquele dia descobri que é preciso saber se defender das manipulações.
O papel de carta do coelhinho era muito interessante, diferente dos outros. Não era desenho, era como se fosse uma foto, mas num estilo de filme antigo. Esse eu ainda devo ter, se alguém quiser ver. Pois esse papel de carta foi um que a pessoa que trocou comigo se arrependeu e veio me pedir pra destrocar. Tive uma empatia enorme pelo problema da pessoa, mas não cedi. Naquele dia tive orgulho de mim pois soube defender meus interesses e não ser "boazinha" como eu sempre era, na expectativa de receber uma migalha de amizade em retorno.
E de tudo ficou um grande aprendizado: quanto mais a criança interage, dentro das dimensões de seu mundo, mais preparada ela estará para lidar com as interações, quando ela e os limites de seu mundo ficarem maiores.
Notícias de uma menina de 7 anos para primas de 9 e 11 anos em geral não eram consideradas urgentes. Falávamos sobre a escola, sobre os passeios que tínhamos feito, sobre as brincadeiras, sobre os doces que tínhamos comido.
Escrevíamos cartas e tínhamos coleções de papéis de carta. Passávamos muitas horas de nossas pequenas vidas admirando a beleza de cada um dos retângulos tamanho A5 impressos. E outras muitas horas alterando a ordem da pasta para uma exibição perfeita (talvez venha daí minha mania de editar albuns de fotografia...)
Quando me lembro da minha coleção, imediatamente me vem à cabeça três episódios: o do papel de carta mais feio do mundo, o do papel de carta do apontador de arco-íris e o do papel de carta do coelhinho.
O papel de carta mais feio do mundo foi um bloco que minha mãe uma vez trouxe para mim com 20 exemplares em que figurava uma menina comum, de cara um pouco quadrada, um tanto desarrumada pelo vento, em vermelho e sépia. Ela veio toda feliz, achando o papel de carta lindo. Naquele dia descobri que gosto não se discute.
O papel de carta do apontador de arco-íris era, este sim, um dos papéis de carta mais lindos do mundo. Que eu troquei com uma menina sem ter um repetido por causa de uma chantagem. Me arrependi amargamente, rodei o mundo atrás do mesmo papel de carta para comprar ou para trocar, sem sucesso. Naquele dia descobri que é preciso saber se defender das manipulações.
O papel de carta do coelhinho era muito interessante, diferente dos outros. Não era desenho, era como se fosse uma foto, mas num estilo de filme antigo. Esse eu ainda devo ter, se alguém quiser ver. Pois esse papel de carta foi um que a pessoa que trocou comigo se arrependeu e veio me pedir pra destrocar. Tive uma empatia enorme pelo problema da pessoa, mas não cedi. Naquele dia tive orgulho de mim pois soube defender meus interesses e não ser "boazinha" como eu sempre era, na expectativa de receber uma migalha de amizade em retorno.
E de tudo ficou um grande aprendizado: quanto mais a criança interage, dentro das dimensões de seu mundo, mais preparada ela estará para lidar com as interações, quando ela e os limites de seu mundo ficarem maiores.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Trajetos e destinos
Nos anos 80 ainda não havia acontecido a grande abertura promovida por Fernando Collor de Mello que, apesar de toda a bagunça que fez com a ajuda de Zélia Cardoso, Cabral e companhia (assunto para posts do próximo mês), tinha certa razão a respeito de nossos carros serem carroças.
Peguei uma lista de carros dos anos 80 num blog alheio para nos lembrarmos de quem povoava nossas ruas, naquela época: Fiat 147, Brasília, Corcel, Fusca, Belina, Chevette, Passat, Variant, Opala, Maverick, Landau, Galaxie, Caravan, Gol, Voyage, Parati, Saveiro, Santana, Quantum, Del Rey, Pampa, Escort, Spazio, Oggi, Panorama, Uno, Prêmio, Elba, Fiorino, Marajó, Monza, Chevy 500, Kadett, etc.
Lá pela minha garagem passaram: uma Panorama 1979, da qual eu gostava porque tinha nascido junto comigo; uma Belina de placa 1910, que eu gostava porque era o ano em que meu avô nasceu; um Fusca verde, que eu gostava porque era do meu outro avô e a gente achava bem engraçado que ele buzinava em todas as esquinas; um Gol que ficou pouco tempo, logo substituído por um Voyage num negócio memorável para toda a família, envolvendo uma linha telefônica que subiu demais de preço (!?!?!?) e nos deixou numa sinuca desgraçada; e, finalmente, um Prêmio que ficou pra mim quando aprendi a dirigir (chegando à minha mão, acreditem se quiser, com 180.000 quilômetros rodados).
Me concentrando na parte que se refere aos anos 80, carros fizeram parte da minha vida principalmente para me levarem à escola, em esquema de rodízio com os filhos de uma amiga da minha mãe. Sempre estudamos bem longe de casa. Minha mãe, como excelente professora que era, nos colocou em colégios ótimos, mais caros do que podíamos pagar e bem distantes de onde morávamos. E era durante essas viagens que tínhamos as maiores oportunidades de conversar com nossos pais - coisa que eles também sabiam e aproveitavam pra valer.
Na volta pra casa, meu pai nos ensinou a nos perdermos pela cidade. Isso mesmo. Lá pelas tantas ele perguntava pra criançada: "Vamos se perder?". A torcida ia ao delírio!!! Passávamos por lugares nunca antes navegados. Eu adorava, especialmente quando era sexta-feira, dia do meu Piano. Guardava sempre aquela esperança íntima de passássemos bastante tempo perdidos...
Fora isso, tinha aquela coisa que toda criança faz: ficar amigo do motorista do carro de trás, dar tchauzinho, fazer aquele "jóinha alternado com o número dois vária vezes", brincar de tiroteio e, invariavelmente, ficar triste quando o amigo vira à direita e seu carro continua em frente.
Carro é, até hoje, por esses e por outros motivos, um lugar onde eu gosto de estar. Isso independe de que carro seja. Independe de pra onde o carro vá (acontece muito de eu me sentir mais feliz nos trajetos do que nos destinos).
Estar num carro, especialmente com companhia, me dá uma agradável sensação de pertencer.
Peguei uma lista de carros dos anos 80 num blog alheio para nos lembrarmos de quem povoava nossas ruas, naquela época: Fiat 147, Brasília, Corcel, Fusca, Belina, Chevette, Passat, Variant, Opala, Maverick, Landau, Galaxie, Caravan, Gol, Voyage, Parati, Saveiro, Santana, Quantum, Del Rey, Pampa, Escort, Spazio, Oggi, Panorama, Uno, Prêmio, Elba, Fiorino, Marajó, Monza, Chevy 500, Kadett, etc.
Lá pela minha garagem passaram: uma Panorama 1979, da qual eu gostava porque tinha nascido junto comigo; uma Belina de placa 1910, que eu gostava porque era o ano em que meu avô nasceu; um Fusca verde, que eu gostava porque era do meu outro avô e a gente achava bem engraçado que ele buzinava em todas as esquinas; um Gol que ficou pouco tempo, logo substituído por um Voyage num negócio memorável para toda a família, envolvendo uma linha telefônica que subiu demais de preço (!?!?!?) e nos deixou numa sinuca desgraçada; e, finalmente, um Prêmio que ficou pra mim quando aprendi a dirigir (chegando à minha mão, acreditem se quiser, com 180.000 quilômetros rodados).
Me concentrando na parte que se refere aos anos 80, carros fizeram parte da minha vida principalmente para me levarem à escola, em esquema de rodízio com os filhos de uma amiga da minha mãe. Sempre estudamos bem longe de casa. Minha mãe, como excelente professora que era, nos colocou em colégios ótimos, mais caros do que podíamos pagar e bem distantes de onde morávamos. E era durante essas viagens que tínhamos as maiores oportunidades de conversar com nossos pais - coisa que eles também sabiam e aproveitavam pra valer.
Na volta pra casa, meu pai nos ensinou a nos perdermos pela cidade. Isso mesmo. Lá pelas tantas ele perguntava pra criançada: "Vamos se perder?". A torcida ia ao delírio!!! Passávamos por lugares nunca antes navegados. Eu adorava, especialmente quando era sexta-feira, dia do meu Piano. Guardava sempre aquela esperança íntima de passássemos bastante tempo perdidos...
Fora isso, tinha aquela coisa que toda criança faz: ficar amigo do motorista do carro de trás, dar tchauzinho, fazer aquele "jóinha alternado com o número dois vária vezes", brincar de tiroteio e, invariavelmente, ficar triste quando o amigo vira à direita e seu carro continua em frente.
Carro é, até hoje, por esses e por outros motivos, um lugar onde eu gosto de estar. Isso independe de que carro seja. Independe de pra onde o carro vá (acontece muito de eu me sentir mais feliz nos trajetos do que nos destinos).
Estar num carro, especialmente com companhia, me dá uma agradável sensação de pertencer.
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Sobreviventes
Nos anos 80, como em todas as décadas desde que o mundo é mundo, crianças não foram programadas para sobreviver. E nós não fomos diferentes.
Me lembro do dia em que meu irmão, ainda bebê, caiu de seu carrinho com a cara em cima de um cano desencapado. Foi assim que ele conquistou uma bonita cicatriz em formato de anzol que o acompanha até hoje.
É viva também a memória do sangue correndo da minha cabeça e manchando minha blusa favorita (uma miniblusa azul, da Minnie) na ocasião uma série de fatos imprevisíveis me renderam alguns pontos no alto da cabeça. Quem poderia imaginar que rolar de costas por sobre um grande tambor solto perto de um tanque de areia - este deliminado por pequenos muros de cimento - poderia resultar em qualquer tipo de acidente?
Um acidente potencial que nunca ocorreu - apesar das frequentes chances que demos - foi cairmos de uma escada que existe na casa da minha mãe direto na outra parte da escada - de uma altura que vaia de 1 a 4 metros. Era a coisa mais gostosa do mundo abraçar o murinho que servia como corrimão e ir deslizando lá de cima sem colocar os pés nos degrais!
À medida que vamos crescendo, ficamos mais previdentes, nos afastamos das situações que podem nos machucar. Talvez por irmos aos poucos construindo um repertório maior de experiências de dor (creio que isso vale também para outras dores menos tangíveis que conhecemos mais tarde na vida).
Quanto mais nos protegemos - o que equivale de uma certa forma a cultivarmos o medo - mais distantes ficamos também da deliciosa sensação de alegria que os momentos anteriores Em às possíveis fatalidades nos trazem.
Nos machucamos menos, mas nos fazemos menos felizes também. Trade offs. Faz parte do processo de deixarmos de ser crianças. Reflexo, talvez, de acreditarmos que temos mais o que perder depois de adultos.
Ou não?
Me lembro do dia em que meu irmão, ainda bebê, caiu de seu carrinho com a cara em cima de um cano desencapado. Foi assim que ele conquistou uma bonita cicatriz em formato de anzol que o acompanha até hoje.
É viva também a memória do sangue correndo da minha cabeça e manchando minha blusa favorita (uma miniblusa azul, da Minnie) na ocasião uma série de fatos imprevisíveis me renderam alguns pontos no alto da cabeça. Quem poderia imaginar que rolar de costas por sobre um grande tambor solto perto de um tanque de areia - este deliminado por pequenos muros de cimento - poderia resultar em qualquer tipo de acidente?
Um acidente potencial que nunca ocorreu - apesar das frequentes chances que demos - foi cairmos de uma escada que existe na casa da minha mãe direto na outra parte da escada - de uma altura que vaia de 1 a 4 metros. Era a coisa mais gostosa do mundo abraçar o murinho que servia como corrimão e ir deslizando lá de cima sem colocar os pés nos degrais!
À medida que vamos crescendo, ficamos mais previdentes, nos afastamos das situações que podem nos machucar. Talvez por irmos aos poucos construindo um repertório maior de experiências de dor (creio que isso vale também para outras dores menos tangíveis que conhecemos mais tarde na vida).
Quanto mais nos protegemos - o que equivale de uma certa forma a cultivarmos o medo - mais distantes ficamos também da deliciosa sensação de alegria que os momentos anteriores Em às possíveis fatalidades nos trazem.
Nos machucamos menos, mas nos fazemos menos felizes também. Trade offs. Faz parte do processo de deixarmos de ser crianças. Reflexo, talvez, de acreditarmos que temos mais o que perder depois de adultos.
Ou não?
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