Nos anos 80, eu e meu irmão estudávamos piano.
Meu irmão, mais disciplinado, mais concentrado e tão competitivo quanto eu, fazia muito mais bonito nas audições particulares pro meu avô, patrocinador da iniciativa. todos os dias pela manhã. Eu, mais avoada e invariavelmente sem vontade de treinar, quase sempre era um desastre.
Mas havia um livro de partituras que nos fazia declarar trégua na disputa pelo reconhecimento alheio: o "Piano a quatro mãos". A divisão de tarefas era adequada: eu fazia o acompanhamento (basicamente a repetição dos acordes, dentro de um determinado ritmo) e ele se encarregava das melodias, que eram mais complicadas.
Nos anos 80 existiam poucos Shoppings em São Paulo, e nós praticamente só íamos ao Eldorado. Tomávamos lanche no Texas Burger e saíamos com um chapéu de cowboy fantástico, feito de plástico amarelo. Minha mãe sempre procurava alguma coisa pra comprar na extinta loja de departamentos "Eldorado Plaza" e reclamava dos preços, enquanto eu e meu irmão brincávamos de esconde-esconde no meio das araras.
Um belo dia, estávamos descendo as escadas rolantes e vimos um homem tocando piano na frente do Gig's. Rodeamos um pouco, nos apoiamos na lateral do instrumento, esperamos o cara terminar a música e logo perguntamos se poderíamos ocupar o lugar dele.
Fomos a sensação do shopping durante a duração do Carnaval de Veneza e d'O Bife. As pessoas que desciam as escadas rolantes se aglomeravam para nos assistir. Paramos logo porque, obviamente, meu repertório decorado se resumia a essas duas músicas.
Depois dessa época também aprendi órgão e violão, mais ou menos da mesma forma: apenas o suficiente para agradar ouvidos pouco exigentes. Cantava nos churrascos de casa, para uma platéia cativa (e cativada por princípio). Volta e meia fico com vontade de cantar numa banda, desde que ela não tenha grandes aspirações.
Só porque é charmoso ser band leader. Só porque é gostoso ser aplaudida, de vez em quando.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
domingo, 23 de novembro de 2008
Primeiro amor
Nos anos 80 eu tive um amor de infância.
Daqueles que ele gosta de você quando você não gosta dele e no momento seguinte invertem-se os papéis. O nome dele era Rodrigo Mateus de Souza Campos, meu melhor amigo.
A "revelação" aconteceu num dia na 2ª série em que a professora perguntou se ele casaria com ela, quando crescesse. O Rodrigo tinha um tipo físico assim, de um futuro Raí, sabe? A professora não era boba nem nada. Mas a resposta do garoto foi não, porque "gostava de outra pessoa". Todos ficaram muito curiosos e atentos a partir daí. Até todo mundo perceber que não tinha pra ninguém. Era de mim mesmo que ele gostava.
Eu imaginava, toda vez que escutava "Quase sem querer", do Legião Urbana (e não era pouco), que era ele quem cantava a música pra mim. Durante o acantonamento, conheci a "Olhar 43", do RPM, e foi nele que pensei enquanto entendia só metade da letra.
Conversar com o Rodrigo foi importante quando meu pai viajou para o Japão. O pai dele também tinha ficado um tempinho no exterior e ele me garantiu que, apesar da saudade, o tempo passava rápido.
Também tenho certeza que ele votou em mim naquela pesquisa feita pelos jornaizinhos da 4ª série, na seção "a menina mais legal na opinião dos meninos". Ganhei com boa margem aquela pesquisa. Pena que, por algum motivo que hoje eu não consigo precisar, não achava viável passar o recreio com os meninos (isso teria me poupado um pouco do sofrimento relatado anteriormente).
Respirei aliviada quando, na festa mais legal de todos os tempos (à qual eu não fui), aconteceram muitos primeiros beijos, mas nenhum com ele.
A história, como qualquer história de amor infantil que se preze, não teve muitos desdobramentos.
Depois que a escola fechou, ele foi para o Ítaca, eu para o Galileu. Ainda o vi saindo pelo portão uma vez, quando passava de carro, voltando pra casa.
Encontrei o Rodrigo depois de muito tempo, quando fui prestar vestibular na ESPM (eu publicidade, ele administração). Nada parecido com o Raí. Depois soube que ele foi pra Ribeirão Preto. Isso é tudo.
Algumas pessoas nunca vão saber a importância que tiveram na curta vida de outras.
A não ser que, inadvertidamente, um dia digitem seu próprio nome no Google e caiam no blog de alguém que fez uma retrospectiva dos anos 80, quase vinte anos depois.
Daqueles que ele gosta de você quando você não gosta dele e no momento seguinte invertem-se os papéis. O nome dele era Rodrigo Mateus de Souza Campos, meu melhor amigo.
A "revelação" aconteceu num dia na 2ª série em que a professora perguntou se ele casaria com ela, quando crescesse. O Rodrigo tinha um tipo físico assim, de um futuro Raí, sabe? A professora não era boba nem nada. Mas a resposta do garoto foi não, porque "gostava de outra pessoa". Todos ficaram muito curiosos e atentos a partir daí. Até todo mundo perceber que não tinha pra ninguém. Era de mim mesmo que ele gostava.
Eu imaginava, toda vez que escutava "Quase sem querer", do Legião Urbana (e não era pouco), que era ele quem cantava a música pra mim. Durante o acantonamento, conheci a "Olhar 43", do RPM, e foi nele que pensei enquanto entendia só metade da letra.
Conversar com o Rodrigo foi importante quando meu pai viajou para o Japão. O pai dele também tinha ficado um tempinho no exterior e ele me garantiu que, apesar da saudade, o tempo passava rápido.
Também tenho certeza que ele votou em mim naquela pesquisa feita pelos jornaizinhos da 4ª série, na seção "a menina mais legal na opinião dos meninos". Ganhei com boa margem aquela pesquisa. Pena que, por algum motivo que hoje eu não consigo precisar, não achava viável passar o recreio com os meninos (isso teria me poupado um pouco do sofrimento relatado anteriormente).
Respirei aliviada quando, na festa mais legal de todos os tempos (à qual eu não fui), aconteceram muitos primeiros beijos, mas nenhum com ele.
A história, como qualquer história de amor infantil que se preze, não teve muitos desdobramentos.
Depois que a escola fechou, ele foi para o Ítaca, eu para o Galileu. Ainda o vi saindo pelo portão uma vez, quando passava de carro, voltando pra casa.
Encontrei o Rodrigo depois de muito tempo, quando fui prestar vestibular na ESPM (eu publicidade, ele administração). Nada parecido com o Raí. Depois soube que ele foi pra Ribeirão Preto. Isso é tudo.
Algumas pessoas nunca vão saber a importância que tiveram na curta vida de outras.
A não ser que, inadvertidamente, um dia digitem seu próprio nome no Google e caiam no blog de alguém que fez uma retrospectiva dos anos 80, quase vinte anos depois.
sábado, 22 de novembro de 2008
Moda e música
Os anos 80 foram anos muito divertidos.
Década das músicas mais saltitantes, das maiores irreverências, das roupas mais ridículas. Anos em que realmente não merecíamos ser levados a sério.
Usei minisaia por cima de calça, jeans semibaggy, macacão cintura alta, camisa branca com ombreira, brinco de plástico de pressão em formato de triangulo, brilhos, fosforecências... Recentemente aproveitei uns Skol Beats para fazer um revival de parte dessa liberdade anti-estética!
Ganhei uma boneca da Porcina, uma moça que trabalhou lá em casa, que era a cara dos anos 80. Roupa de ir para a balada: cabelo de lã espetado pra todos os lados, roupinha listada de prateado com preto - por cima de uma calça de ginástica - e faixa na cabeça. Fiquei bem triste quando meu pai mandou a Porcina embora porque ela saia à noite e no outro dia não conseguia acordar. Nada mais anos 80.
Naqueles anos gente da minha idade ia pros bailinhos (ou brincadeiras dançantes, para quem morava no interior). Tempo de grandes emoções, taquicardias, palpitações, quando alguém te tirava para dançar uma música lenta (muuuuuuuuuuuuito raro!). Pegar na mão era prova de amor eterno.
No playlist não podia faltar "Dancing with myself", "Karma Chameleon", "Take me to the Church on time", "You spin me round (like a record)", "Just can´t get enough", no melhor estilo "estou no mundo a passeio".
Que a irreverência dos anos 80 nos acompanhe a todos...
Década das músicas mais saltitantes, das maiores irreverências, das roupas mais ridículas. Anos em que realmente não merecíamos ser levados a sério.
Usei minisaia por cima de calça, jeans semibaggy, macacão cintura alta, camisa branca com ombreira, brinco de plástico de pressão em formato de triangulo, brilhos, fosforecências... Recentemente aproveitei uns Skol Beats para fazer um revival de parte dessa liberdade anti-estética!
Ganhei uma boneca da Porcina, uma moça que trabalhou lá em casa, que era a cara dos anos 80. Roupa de ir para a balada: cabelo de lã espetado pra todos os lados, roupinha listada de prateado com preto - por cima de uma calça de ginástica - e faixa na cabeça. Fiquei bem triste quando meu pai mandou a Porcina embora porque ela saia à noite e no outro dia não conseguia acordar. Nada mais anos 80.
Naqueles anos gente da minha idade ia pros bailinhos (ou brincadeiras dançantes, para quem morava no interior). Tempo de grandes emoções, taquicardias, palpitações, quando alguém te tirava para dançar uma música lenta (muuuuuuuuuuuuito raro!). Pegar na mão era prova de amor eterno.
No playlist não podia faltar "Dancing with myself", "Karma Chameleon", "Take me to the Church on time", "You spin me round (like a record)", "Just can´t get enough", no melhor estilo "estou no mundo a passeio".
Que a irreverência dos anos 80 nos acompanhe a todos...
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sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Amizades
Nos anos 80, o Colégio Gávea existia.
O Gávea é uma escola que guardo com muito carinho dentro do meu coração. Reencontrei sua antiga dona numa viagem recente a Petrópolis e entendi melhor porque a escola era do jeito que era: crianças passando o recreio na sala da diretora (explorando jogos e outras coisas interessantes), aula de ouvir histórias e de cantas música dos titãs (dentro da própria grade curricular), meu poeminha sobre a Amazônia virando ficha de estudos de todos os alunos da 4ª série... Como escola, era um sonho (algo que um dia eu quero proporcionar pros meus filhos). Mas também foi palco de muitos momentos difíceis na minha vida.
Por um azar incrível, as duas pessoas que eu costumava chamar de amigas no início da minha vida eram tudo, menos amigas. Hoje sei que existe nome para o que eu vivia: bullying. Não recomendo.
Minha reação ao ser colocada continuamente "de gelo" (situação em que a regra é as pessoas agirem como se você não existisse), orientada pela voz experiente da minha mãe, foi aprender a não ligar, a viver sem precisar de amigos, a me bastar.
Sinto que, mesmo depois de passada a fase brava, nunca mais consegui incluir realmente as amizades na minha vida. Elas existem, eu adoro de paixão meus amigos, mas eles ocupam um lugar marginal na minha rotina. Isso é uma coisa que eu acho, de certa forma, triste (mas só quando paro pra pensar. Do contrário, nem percebo que isso acontece).
Aos dez anos, quando eu estava na 4ª série, quase que tudo passou a ser diferente. Por pouco. Eu me espantei de mudar de classe e tanta gente passar a me achar uma pessoa legal. Fui incluída, convidada, considerada, enturmada. Até hoje acho que aquele foi o ano mais feliz da minha vida (até pelo contraste com os anteriores).
Foi nesse ano que a escola fechou e, com ela, fechou-se também minha janela de oportunidade. As pessoas se espalharam por muitos colégios e eu, bem, não senti imediatamente o quanto tinha me ressentido.
Creio que foi desse momento como em diante que eu eu coloquei definitivamente minhas metas (meus escudos) acima dos meus sentimentos. A partir daí fiz muitas escolhas sem me dar ouvidos de fato. O que me levou pra longe de mim mesma muitas (e importantes) vezes.
Hoje me tenho mais perto. Porém com as idiossincrasias que carrego dessas andanças. Com muitas coisas ainda por equilibrar.
O Gávea é uma escola que guardo com muito carinho dentro do meu coração. Reencontrei sua antiga dona numa viagem recente a Petrópolis e entendi melhor porque a escola era do jeito que era: crianças passando o recreio na sala da diretora (explorando jogos e outras coisas interessantes), aula de ouvir histórias e de cantas música dos titãs (dentro da própria grade curricular), meu poeminha sobre a Amazônia virando ficha de estudos de todos os alunos da 4ª série... Como escola, era um sonho (algo que um dia eu quero proporcionar pros meus filhos). Mas também foi palco de muitos momentos difíceis na minha vida.
Por um azar incrível, as duas pessoas que eu costumava chamar de amigas no início da minha vida eram tudo, menos amigas. Hoje sei que existe nome para o que eu vivia: bullying. Não recomendo.
Minha reação ao ser colocada continuamente "de gelo" (situação em que a regra é as pessoas agirem como se você não existisse), orientada pela voz experiente da minha mãe, foi aprender a não ligar, a viver sem precisar de amigos, a me bastar.
Sinto que, mesmo depois de passada a fase brava, nunca mais consegui incluir realmente as amizades na minha vida. Elas existem, eu adoro de paixão meus amigos, mas eles ocupam um lugar marginal na minha rotina. Isso é uma coisa que eu acho, de certa forma, triste (mas só quando paro pra pensar. Do contrário, nem percebo que isso acontece).
Aos dez anos, quando eu estava na 4ª série, quase que tudo passou a ser diferente. Por pouco. Eu me espantei de mudar de classe e tanta gente passar a me achar uma pessoa legal. Fui incluída, convidada, considerada, enturmada. Até hoje acho que aquele foi o ano mais feliz da minha vida (até pelo contraste com os anteriores).
Foi nesse ano que a escola fechou e, com ela, fechou-se também minha janela de oportunidade. As pessoas se espalharam por muitos colégios e eu, bem, não senti imediatamente o quanto tinha me ressentido.
Creio que foi desse momento como em diante que eu eu coloquei definitivamente minhas metas (meus escudos) acima dos meus sentimentos. A partir daí fiz muitas escolhas sem me dar ouvidos de fato. O que me levou pra longe de mim mesma muitas (e importantes) vezes.
Hoje me tenho mais perto. Porém com as idiossincrasias que carrego dessas andanças. Com muitas coisas ainda por equilibrar.
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quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Construção
Minha casa foi construída com recursos do BNH (Banco Nacional da Habitação).
Antes, no terreno de 250m², comprado com a ajuda do meu avô, existia uma casa de pau a pique minúscula, cheia de buracos nas paredes.
Brinquei com meu irmão durante as várias fases de construção da casa: equilibrista na fase das fundações, Indiana Jones na fase do tijolo à vista, esconde-esconde na fase de acabamento.
O primeiro aniversário comemorado na nova casa foi o meu, aos 4 anos, ainda pisando no contrapiso. Alguns meses depois veio o inverno e, com ele, os carpetes.
Nosso quintal já sofreu muitas transformações. Houve um tempo em que tínhamos uma verdadeira fazenda em miniatura no fundo de casa: abacateiro, goiabeira, pessegueiro, pé de mixirica, limoeiro, milho, fruta do conde, canteiros com cenoura, alface, beterrada, além das ervas - salsinha, cebolinha, hortelã, alecrim, arruda, manjerição, novalgina, alfazema... - e das criação de galinhas, codornas e patos. Tínhamos também um cachorro, duas tartarugas, dois periquitos e três ramsters. Foi nessa época que a escolhinha do meu irmão promoveu uma excursão dos alunos do jardim II para a minha casa.
Também tivemos um parquinho com balaço, escorregador, gangorra e caixa de areia no fundo do quintal. Na parte cimentada, eu e meu irmão desenhávamos ruas e cruzamentos para andar de bicicleta em alta velocidade. Jogávamos vôlei, futebol, basquete...
Estou lembrando agora de mais uma invenção do meu pai: uma forma de prender o cachorro de forma que pudesse correr de um lado para o outro. A corrente do cachorro não era presa num ponto fixo. Ela corria ao longo de um fio de arame bem grosso fixado no chão, rente ao muro, de fora a fora. Era gostoso ouvir aquele barulho e saber que o Sansão estava por ali...
Durante a década de 80, no período de crise mais grave, muita gente não conseguiu pagar as prestações do financiamento e quase perdeu a casa. A gente estava nessa lista.
Graças a um erro do governo da época na proposição de um acordo, aliado à agilidade dos meus pais e à valiosa orientação de uma amiga da família que trabalhava na Caixa Econômica Federal, conseguimos dar entrada na papelada no único dia em que a possibilidade desse acordo vigorou. Voltamos a pagar as prestações e, alguns anos depois, quitamos a dívida.
Minha avó - que mora hoje numa casa construída no fundo do quintal que abriga tantas memórias (aproveito para desafiar meus leitores a adivinharem quem projetou essa casa tão bem resolvida em termos de aproveitamento de espaço, iluminação e ventilação) - afirma que foi um ritual de despedida para os antigos moradores daquele terreno, envolvendo xaxim e queimas, que abriu os caminhos para a consolidação dessa conquista.
Quem sou eu pra duvidar? Agradeço profundamente, a todos os viventes e não viventes, pela graça alcançada.
Antes, no terreno de 250m², comprado com a ajuda do meu avô, existia uma casa de pau a pique minúscula, cheia de buracos nas paredes.
Brinquei com meu irmão durante as várias fases de construção da casa: equilibrista na fase das fundações, Indiana Jones na fase do tijolo à vista, esconde-esconde na fase de acabamento.
O primeiro aniversário comemorado na nova casa foi o meu, aos 4 anos, ainda pisando no contrapiso. Alguns meses depois veio o inverno e, com ele, os carpetes.
Nosso quintal já sofreu muitas transformações. Houve um tempo em que tínhamos uma verdadeira fazenda em miniatura no fundo de casa: abacateiro, goiabeira, pessegueiro, pé de mixirica, limoeiro, milho, fruta do conde, canteiros com cenoura, alface, beterrada, além das ervas - salsinha, cebolinha, hortelã, alecrim, arruda, manjerição, novalgina, alfazema... - e das criação de galinhas, codornas e patos. Tínhamos também um cachorro, duas tartarugas, dois periquitos e três ramsters. Foi nessa época que a escolhinha do meu irmão promoveu uma excursão dos alunos do jardim II para a minha casa.
Também tivemos um parquinho com balaço, escorregador, gangorra e caixa de areia no fundo do quintal. Na parte cimentada, eu e meu irmão desenhávamos ruas e cruzamentos para andar de bicicleta em alta velocidade. Jogávamos vôlei, futebol, basquete...
Estou lembrando agora de mais uma invenção do meu pai: uma forma de prender o cachorro de forma que pudesse correr de um lado para o outro. A corrente do cachorro não era presa num ponto fixo. Ela corria ao longo de um fio de arame bem grosso fixado no chão, rente ao muro, de fora a fora. Era gostoso ouvir aquele barulho e saber que o Sansão estava por ali...
Durante a década de 80, no período de crise mais grave, muita gente não conseguiu pagar as prestações do financiamento e quase perdeu a casa. A gente estava nessa lista.
Graças a um erro do governo da época na proposição de um acordo, aliado à agilidade dos meus pais e à valiosa orientação de uma amiga da família que trabalhava na Caixa Econômica Federal, conseguimos dar entrada na papelada no único dia em que a possibilidade desse acordo vigorou. Voltamos a pagar as prestações e, alguns anos depois, quitamos a dívida.
Minha avó - que mora hoje numa casa construída no fundo do quintal que abriga tantas memórias (aproveito para desafiar meus leitores a adivinharem quem projetou essa casa tão bem resolvida em termos de aproveitamento de espaço, iluminação e ventilação) - afirma que foi um ritual de despedida para os antigos moradores daquele terreno, envolvendo xaxim e queimas, que abriu os caminhos para a consolidação dessa conquista.
Quem sou eu pra duvidar? Agradeço profundamente, a todos os viventes e não viventes, pela graça alcançada.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Videocassete
Na década de 80 os videocassetes chegaram às casas das pessoas.
Apesar de não termos dinheiro para comprar nem Danoninho, um belo dia meus pais chegaram contentíssimos em casa.
Pareciam duas crianças. Subiram correndo as escadas. Enquanto meu pai instalava aquele trambolhão preto na TV, minha mãe segurava ansiosa as 5 fitas que alugou na primeira locadora inaugurada no bairro. Depois percebemos a importância de ela ter sido uma das clientes mais antigas, mais assíduas e com o maior tíquete médio daquele lugar: isso foi determinante para a criação do único acervo dos chamados filmes de arte num raio de 15 km.
Uma vez, eu peguei 5 filmes no início das férias - que terminaram sem que eu os tivesse devolvido. Foi uma crise de grandes proporções lá em casa. Para compensar o prejuízo, combinamos que eu ficaria 6 meses sem passar nem perto da locadora.
Resultado: fiz a carterinha na biblioteca e comecei a ler muitos livros das coleções Vagalume, Tramas e Transas, Encontros e Desencontros, Para Gostar de Ler, ... Além deles terem me ajudado a viver muitas aventuras, me deram um importante argumento para tentar reduzir a minha pena: aos 3 meses de uso semanal da biblioteca, não tinha atrasado em 1 dia sequer a devolução dos livros.
Chamei meu pai para uma reunião e ele não resistiu ao "poder dos meus argumentos". Foi assim que pude voltar a alugar minhas fitas.
Acredito que alguns filmes que vi naquele videocassete fizeram parte da minha constituição pessoal: "Thelma & Louise" me fez valorizar a coragem feminina; "A Insustentável Leveza do Ser" me sensibilizou para as noções de público e privado, liberdade e cerceamento; "Retratos da Vida" contribuiu para fortalecer minha aversão à guerra; "Shirley Valentine", bem, esse eu só fui entender muito tempo depois...
Gosto de narrativas. De contextos, de evoluções, de clímax, de transformações, de gente em construção.
E também gosto de finais felizes.
Apesar de não termos dinheiro para comprar nem Danoninho, um belo dia meus pais chegaram contentíssimos em casa.
Pareciam duas crianças. Subiram correndo as escadas. Enquanto meu pai instalava aquele trambolhão preto na TV, minha mãe segurava ansiosa as 5 fitas que alugou na primeira locadora inaugurada no bairro. Depois percebemos a importância de ela ter sido uma das clientes mais antigas, mais assíduas e com o maior tíquete médio daquele lugar: isso foi determinante para a criação do único acervo dos chamados filmes de arte num raio de 15 km.
Uma vez, eu peguei 5 filmes no início das férias - que terminaram sem que eu os tivesse devolvido. Foi uma crise de grandes proporções lá em casa. Para compensar o prejuízo, combinamos que eu ficaria 6 meses sem passar nem perto da locadora.
Resultado: fiz a carterinha na biblioteca e comecei a ler muitos livros das coleções Vagalume, Tramas e Transas, Encontros e Desencontros, Para Gostar de Ler, ... Além deles terem me ajudado a viver muitas aventuras, me deram um importante argumento para tentar reduzir a minha pena: aos 3 meses de uso semanal da biblioteca, não tinha atrasado em 1 dia sequer a devolução dos livros.
Chamei meu pai para uma reunião e ele não resistiu ao "poder dos meus argumentos". Foi assim que pude voltar a alugar minhas fitas.
Acredito que alguns filmes que vi naquele videocassete fizeram parte da minha constituição pessoal: "Thelma & Louise" me fez valorizar a coragem feminina; "A Insustentável Leveza do Ser" me sensibilizou para as noções de público e privado, liberdade e cerceamento; "Retratos da Vida" contribuiu para fortalecer minha aversão à guerra; "Shirley Valentine", bem, esse eu só fui entender muito tempo depois...
Gosto de narrativas. De contextos, de evoluções, de clímax, de transformações, de gente em construção.
E também gosto de finais felizes.
domingo, 16 de novembro de 2008
Política e Democracia
A década de 80 foi muito importante para a democracia brasileira. Primeiro, aconteceu a passagem do poder dos militares para um presidente civil - que morreu em seguida. Depois, veio o bigodudo maranhense do Plano Cruzado. Depois aconteceu a eleição do caçador de marajás.
Dessas épocas me lembro de ver meus pais preocupadíssimos, acompanhando na TV o cortejo do caixão coberto com a bandeira, sem conseguir que alguém conseguisse me fazer entender o que estava acontecendo.
Depois me lembro de ver um montão de gente nas passeatas pelas "Diretas Já!" e meu pai falando que "a mamãe estava aparecendo na TV". Forcei muito a vista para enxergar, mas não vi nada.
Também me lembro da inflação galopante. Ela fazia com que meu pai ligasse pra minha mãe no dia em que recebia o pagamento e assim nos aprontávamos depressa para chegarmos ao supermercado o mais rápido possível.
Naquela época fazíamos uma compra enorme, pro mês inteiro, e tentávamos sempre pegar os pacotes da direita do etiquetador (antes que ele conseguisse terminar de remarcar os preços). Foi nessa época que compramos o freezer, pra poder estocar carnes por mais tempo.
Nas eleições de 89, fui ao meu primeiro comício - o mais lindo do mundo. Muita, muita gente no Anhangabaú cantando "é a gente junto, valeu a espera, sem medo de ser feliz". A gente realmente pensou que fosse daquela vez. Mas o Jornal Nacional editou o último debate e mudou os rumos da eleição.
Acompanhei tudo isso e acreditei que a população tem mesmo algum poder de influenciar seu próprio futuro, de mostrar sua força nas ruas, ainda que nem sempre os objetivos sejam alcançados numa primeira vez.
Talvez essas experiências tenham contribuído muito para meu jeito de pensar o futuro e o país - contruído por todos, melhor para todos.
Dessas épocas me lembro de ver meus pais preocupadíssimos, acompanhando na TV o cortejo do caixão coberto com a bandeira, sem conseguir que alguém conseguisse me fazer entender o que estava acontecendo.
Depois me lembro de ver um montão de gente nas passeatas pelas "Diretas Já!" e meu pai falando que "a mamãe estava aparecendo na TV". Forcei muito a vista para enxergar, mas não vi nada.
Também me lembro da inflação galopante. Ela fazia com que meu pai ligasse pra minha mãe no dia em que recebia o pagamento e assim nos aprontávamos depressa para chegarmos ao supermercado o mais rápido possível.
Naquela época fazíamos uma compra enorme, pro mês inteiro, e tentávamos sempre pegar os pacotes da direita do etiquetador (antes que ele conseguisse terminar de remarcar os preços). Foi nessa época que compramos o freezer, pra poder estocar carnes por mais tempo.
Nas eleições de 89, fui ao meu primeiro comício - o mais lindo do mundo. Muita, muita gente no Anhangabaú cantando "é a gente junto, valeu a espera, sem medo de ser feliz". A gente realmente pensou que fosse daquela vez. Mas o Jornal Nacional editou o último debate e mudou os rumos da eleição.
Acompanhei tudo isso e acreditei que a população tem mesmo algum poder de influenciar seu próprio futuro, de mostrar sua força nas ruas, ainda que nem sempre os objetivos sejam alcançados numa primeira vez.
Talvez essas experiências tenham contribuído muito para meu jeito de pensar o futuro e o país - contruído por todos, melhor para todos.
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